Sabe aquela cena do Batman: O Cavaleiro das Trevas em que o Coringa diz "ninguém entra em pânico quando as coisas saem conforme o plano"? Pois é. O plano era simples: Greg Abel assume o trono da Berkshire Hathaway, escreve uma cartinha bonita pros acionistas, reafirma os valores do mestre Buffett, e todo mundo segue em frente aplaudindo.

Só que o mercado não leu o roteiro.

O Tropeço

As ações classe A da Berkshire abriram a semana caindo 4,2%. O motivo? Resultados do quarto trimestre de 2025 que fizeram Wall Street engolir seco: lucro operacional de US$ 10,2 bilhões — uma queda de quase 30% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O vilão principal? O segmento de seguros, que é historicamente o coração pulsante da máquina Berkshire. O lucro de subscrição (underwriting) despencou 54%, saindo de US$ 3,41 bilhões para míseros US$ 1,56 bilhão. Quando o motor de seguros tosse, o conglomerado inteiro espirra.

Mas convenhamos: trimestre ruim no negócio de seguros acontece. Catástrofes naturais, sinistros acima da média, ciclo do mercado. Isso não é novidade pra quem acompanha a Berkshire há mais de duas décadas. O próprio Buffett já alertou inúmeras vezes que trimestres isolados são ruído, não sinal.

Então por que o mercado reagiu assim?

A Montanha de Dinheiro que Não se Mexe

Porque o problema de verdade não é o trimestre fraco. É a porra da montanha de US$ 370 bilhões em caixa e títulos do Tesouro que continua lá, paradona, acumulando poeira dourada — e Greg Abel, na sua primeira comunicação como CEO, basicamente disse: "tá tranquilo, tá favorável."

Nada de dividendo. Nada de aquisição grande. Nada de sinalização ousada. Nenhum movimento que dissesse ao mercado: "Eu sou o cara agora, e vou colocar esse dinheiro pra trabalhar."

Meyer Shields, analista da KBW, não escondeu a frustração: "Ficamos surpresos com a ausência de qualquer tipo de dividendo, e mais ainda com a declaração sustentada de que não pretendem pagar dividendos." Ele complementou que, dado o caixa absurdo e a capacidade de geração de caixa da empresa, havia expectativa de que a transição de CEO viesse acompanhada de alguma sinalização nessa direção.

Abel, no entanto, preferiu o caminho seguro: repetiu o mantra de Buffett sobre reinvestimento e recompra oportunista de ações quando estiverem abaixo do valor intrínseco. Copiou a cartilha. Palavra por palavra.

E aqui mora a ironia cruel da sucessão: quando você herda o trono de um gênio, ser fiel demais ao playbook pode parecer falta de personalidade própria.

O Outro Lado da Moeda

Nem todo mundo saiu vendendo e chorando. Brian Meredith, do UBS, fez o papel do cara racional no meio do pânico: lembrou que a Berkshire é, por natureza, uma fortaleza defensiva. E com as tensões geopolíticas atuais em alta, esse perfil pode ser exatamente o que o mercado vai querer abraçar.

"Historicamente, as ações da BRK superaram o mercado em períodos de volatilidade, beneficiando-se dos fluxos diversificados de receita, posição de liquidez e negócios majoritariamente focados nos EUA", escreveu Meredith.

Ponto válido. Buffett construiu a Berkshire justamente pra ser o bunker que você quer ter quando o mundo pega fogo. E com US$ 370 bilhões em caixa, esse bunker tem munição de sobra pra comprar ativos de quem estiver desesperado — se Abel tiver a coragem de puxar o gatilho.

Meredith ainda destacou que, olhando pra frente, espera que a gestão foque em melhorar as margens operacionais da BNSF (ferrovia) pra se aproximar dos concorrentes, e em aumentar a retenção de clientes na Geico mantendo a rentabilidade.

A Questão que Ninguém Quer Fazer

Olha, eu entendo o Greg Abel. O cara assumiu a empresa mais icônica do capitalismo americano. Qualquer movimento ousado que der errado vai ser comparado com o que Buffett faria. Qualquer decisão conservadora vai ser chamada de covardia. É um jogo impossível de vencer no curto prazo.

Mas Nassim Taleb nos ensinou uma coisa: a diferença entre um burocrata e um tomador de decisão é que o segundo tem skin in the game. Abel precisa, em algum momento, deixar de ser o zelador do templo e virar o sacerdote com voz própria.

US$ 370 bilhões parados não é disciplina. É paralisia com grife.

A pergunta que fica: será que Abel está esperando a oportunidade perfeita — como Buffett fez em 2008, comprando Goldman Sachs com uma bazuca — ou será que ele simplesmente não tem estômago pra fazer o que precisa ser feito?

O mercado já deu o recado. Agora é com ele.