Sabe aquele momento no filme em que o vilão acha que tem o plano perfeito, e aí alguém puxa o tapete debaixo dele — mas em vez de recuar, ele dobra a aposta? Pois é. Bem-vindo ao episódio mais recente da novela tarifária americana.
Na sexta-feira, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por 6 a 3, que Donald Trump não tinha autoridade legal para impor aquelas tarifas massivas que ele enfiou goela abaixo do mundo em abril passado, usando o IEEPA (International Emergency Economic Powers Act). Traduzindo do juridiquês: o tribunal falou "você não pode fazer isso, amigão."
E o que Trump fez? O que qualquer personagem de Breaking Bad faria quando encurralado.
Dobrou a aposta.
O Contra-Ataque Previsível
Horas depois da decisão, o governo Trump meteu novas tarifas de até 15% — com efeito imediato — sobre uma porrada de parceiros comerciais. O cara levou um "não" do Judiciário e respondeu com um "foda-se, achei outro caminho."
O novo caminho? A Seção 122 do Tariff Act de 1974. Uma lei mais velha que muito trader da Faria Lima. Mas tem um detalhe que o mercado precisa prestar atenção: essa seção limita a validade das tarifas a 150 dias — ou seja, meados de julho — depois disso, precisa do Congresso aprovar.
E aqui é onde a coisa fica interessante. O governo já sinalizou que pretende usar as seções 232 e 301 da mesma lei pra complementar. Na prática, isso significa que essa guerra tarifária pode se arrastar por anos.
Anos, meu amigo. Não meses. Anos.
A Europa Tá Puta. E Com Razão.
Os líderes da União Europeia não disfarçaram a indignação. As novas tarifas jogam no lixo acordos comerciais que foram negociados com o próprio governo americano no ano passado. Na segunda-feira, a UE adiou mais uma vez uma votação crucial sobre o acordo com os EUA.
Pensa na cena: você passa meses sentado numa mesa de negociação, chega num acordo, aperta a mão do cara — e no fim de semana seguinte ele muda as regras do jogo. Quem vai querer negociar de novo?
Ninguém.
E é exatamente isso que Mark Zandi, economista-chefe da Moody's Analytics, disse pra CNBC: "Nada além de desvantagem" pra economia americana.
"As empresas não sabem o que vai acontecer", disse Zandi. "Vão investir menos, contratar menos, ser menos agressivas nas suas expansões."
Tradução: quando o dono do cassino muda as regras no meio do jogo, os jogadores vão pra outro cassino.
E Adivinha Quem Tá Sorrindo?
A China.
Enquanto o mundo tenta entender o próximo capítulo do circo tarifário americano, as exportações chinesas cresceram 6,6% em dezembro em relação ao ano anterior — acima das expectativas dos analistas. O superávit comercial anual da China bateu recorde.
Países que antes negociavam primordialmente com os EUA estão desviando rotas comerciais pra China. É o tipo de consequência de segunda ordem que o Taleb adoraria analisar: Trump quer proteger a indústria americana, e o efeito colateral é fortalecer o maior rival geopolítico dos EUA.
Irônico, não?
Nem Todo Mundo Tá Em Pânico
A Veronica Clark, economista do Citigroup, jogou um balde de água fria nos alarmistas: as novas tarifas "implicam pouca mudança na taxa efetiva de tarifas ou nas nossas previsões de inflação no curto prazo."
Justo. No curto prazo, talvez não mude tanto. Mas mercado não precifica só o presente — precifica percepção de risco. E a percepção de risco sobre negociar com os Estados Unidos tá indo pro espaço.
Como disse Mike Reid, do Royal Bank of Canada: "Isso muda como o comércio é feito com a maior economia do mundo, e isso tem consequências econômicas."
O Jogo de Verdade
Nassim Taleb diria que o problema não é a tarifa em si — é a fragilidade que a imprevisibilidade cria. Empresas não quebram por causa de um imposto. Quebram porque não conseguem planejar. Governos não rompem relações por causa de uma taxa. Rompem porque perdem a confiança.
E confiança, uma vez perdida, é a porra da coisa mais difícil de reconstruir no planeta.
Zandi resumiu com uma frase que deveria ser tatuada na testa de todo formulador de política econômica: "A percepção crescente é de que os EUA são uma economia mal administrada. E, objetivamente falando, eles estão certos."
A pergunta que fica é simples: se você fosse um governo estrangeiro ou um CEO de multinacional, você apostaria suas fichas num país que muda as regras do jogo a cada fim de semana?
Pois é. A China tá esperando sua resposta.