Deixa eu te contar como o mercado financeiro funciona de verdade.

Uma empresa em queda livre. Um rumor vaza para a Bloomberg. As ações sobem 7% no mesmo dia. Todo mundo aplaude. Ninguém pergunta nada.

Bem-vindo ao circo.

O PayPal — aquela empresa que um dia foi o futuro dos pagamentos digitais, a joia da coroa que o eBay jogou fora e que depois virou independente com pompa e circunstância — está numa sinuca de bico. Caiu mais de 19% só em 2026. Perdeu quase um terço do seu valor ao longo de 2025. A guidance de lucros veio fraca, o board acabou de trocar o CEO (entrou Enrique Lores, vindo da HP — sim, da HP), e a competição no mercado de pagamentos digitais está asfixiando a empresa por todos os lados.

Mas aí aparece um sussurro: a Stripe estaria "pesando" uma aquisição.

E pronto. Fogos de artifício. Manchete na CNBC. Alta de 7%.


Vamos falar sério por um segundo.

"Conversas em estágio inicial" é o idioma diplomático para "não existe nada concreto ainda". Qualquer M&A (fusão e aquisição, pra quem não curte economês) começa com um jantar, um telefonema, um intermediário sussurrando possibilidades. Isso não é negócio. Isso é namoro no app de relacionamento — você nem sabe se a outra pessoa vai responder a mensagem.

Nassim Taleb chamaria isso de ruído. O mercado chama de sinal. E aí você entende por que a maioria das pessoas perde dinheiro.


Mas a Stripe é séria. Isso é fato.

A empresa acaba de ser avaliada em US$ 159 bilhões após uma venda secundária de ações para funcionários e investidores. No ano passado, essa cifra era US$ 91,5 bilhões. Crescimento quase que dobrado em doze meses, sem abrir capital, sem dançar para os analistas de Wall Street, sem road show com power point cheio de seta pra cima.

John Collison, cofundador e presidente da Stripe, disse direto na TV que IPO não está nos planos agora. Porque IPO "atrapalharia o crescimento do produto e do negócio". Isso é o que uma empresa séria fala. Não é guru de Instagram prometendo liberdade financeira. É um fundador com skin in the game de verdade dizendo: a gente está construindo algo, e não vamos parar pra fazer apresentação em PowerPoint pra fundo de pensão.

A Stripe também comprou a Metronome em janeiro — startup de billing — mostrando que está montando um ecossistema financeiro completo, não apenas processando pagamento de e-commerce.

Faz sentido querer o PayPal? Talvez. O PayPal tem base de usuários gigantesca, tem Venmo, tem reconhecimento de marca. Em termos estratégicos, seria como o Batman absorver o arsenal do Superman depois que ele tombou. Você não compra pelo que ele é hoje, compra pelo que ele tem e pelo que você pode fazer com isso.


Mas aqui está a pergunta que ninguém está fazendo:

Comprar uma empresa que perdeu um terço do valor, trocou de CEO, está sangrando market share pro Apple Pay, Google Pay, Pix (no Brasil) e meia dúzia de outras soluções — isso é oportunidade ou é cilada?

Buffett tem uma frase que vale ouro aqui: "Quando um gestor brilhante encontra um negócio com reputação ruim, geralmente é a reputação do negócio que permanece intacta."

O PayPal pode não ter reputação ruim, mas tem um problema estrutural real: o mercado em que ele cresceu — pagamentos online — virou commodidade. Todo mundo faz. O diferencial foi embora. E tu não conserta isso com uma nova liderança vinda da HP, por mais respeitoso que seja com o novo CEO.


E o varejo? Os pequenos investidores?

Correram pra comprar na alta do rumor. Porque é isso que acontece quando o mercado opera no modo cassino. A manchete aparece, a FOMO bate, e o sujeito compra sem nem saber o que é "estágio inicial de discussões".

Amanhã, se o rumor morrer — e há uma chance real disso acontecer — esses mesmos 7% somem. E vai sobrar quem segurou o mico.

Skin in the game, caros leitores. Quem vazou esse rumor para a Bloomberg tem alguma posição montada nisso? Alguém está vendendo na alta que o boato criou?

Essas são as perguntas que o noticiário financeiro mainstream não vai te fazer.

Mas eu faço.


Você comprou PayPal no rumor de hoje — ou você esperou ver o que acontece com a fumaça?