Porra, presta atenção nessa história porque ela é um termômetro perfeito do que tá acontecendo debaixo do capô da revolução da IA.

Chamath Palihapitiya — o cara que ficou bilionário com o Facebook, virou o rei dos SPACs, levou porrada do mercado quando a bolha estourou e agora toca empresas de software — soltou uma bomba que pouquíssima gente no Brasil tá comentando: a empresa dele está abandonando o Cursor porque o gasto com tokens de IA estava ficando insustentável.

Leia de novo: insustentável.

O Cursor é o queridinho — mas queridinho custa caro

Pra quem não tá por dentro, o Cursor é um editor de código turbinado com inteligência artificial. É basicamente o cara que programa junto com você, sugere código, completa funções, debugga erros. É o copiloto dos devs. O negócio é bom. É realmente bom.

Só que "bom" e "economicamente viável" são duas conversas completamente diferentes.

Toda vez que o Cursor faz uma sugestão, completa uma linha de código ou analisa um arquivo inteiro, ele consome tokens — que são as unidades de processamento dos modelos de linguagem como GPT-4, Claude, etc. E esses tokens custam dinheiro. Dinheiro real. Dinheiro que aparece na fatura no final do mês.

E quando você escala isso para uma empresa inteira de engenheiros de software trabalhando o dia todo, a conta vira um monstro.

O problema que ninguém quer discutir

Aqui é onde a coisa fica interessante — e onde o circo da IA prefere trocar de assunto.

A narrativa dominante no Vale do Silício é: "IA vai substituir programadores, vai cortar custos, vai multiplicar produtividade por 10x!" Os VCs postam isso no Twitter/X entre um café artesanal e um voo de jatinho. Os gurus de LinkedIn repetem como papagaio.

Mas a realidade que Chamath acabou de expor é muito mais crua: a IA generativa, no formato atual, tem um custo marginal que não é desprezível. Cada interação custa. Cada prompt custa. Cada token custa.

É como contratar um estagiário genial que cobra por palavra dita. No começo parece barato. Quando ele não para de falar, você olha a fatura e engole seco.

Isso me lembra uma frase do Nassim Taleb: "Se algo parece bom demais pra ser verdade, calcule o custo oculto." O custo oculto da revolução IA-nos-editores-de-código é a conta de tokens.

O que isso significa pro mercado

Primeiro: isso não é um atestado de óbito da IA no desenvolvimento de software. Longe disso. É uma correção de rota. E correções de rota são saudáveis — são o que separa empresas que sobrevivem daquelas que viram case de fracasso em podcast de startups falidas.

Segundo: isso levanta uma questão que deveria estar na cabeça de todo investidor e todo gestor de tecnologia: qual é o ROI real das ferramentas de IA generativa quando você coloca todos os custos na mesa?

Porque uma coisa é o dev individual pagando US$ 20 por mês no Cursor Pro e achando o máximo. Outra coisa completamente diferente é uma empresa com 50, 100, 200 engenheiros rodando isso o dia todo, consumindo tokens como se fosse água.

Terceiro — e talvez o mais importante: as empresas que vendem "pás" nessa corrida do ouro da IA (OpenAI, Anthropic, Google com o Gemini) estão numa posição absurdamente poderosa. Elas cobram por token. Quanto mais gente usa, mais elas faturam. O modelo de negócio delas é basicamente uma torneira que todo mundo precisa abrir, e a conta de água vai pra você.

A lição que o Chamath tá dando de graça

O bilionário não saiu chorando no podcast. Ele simplesmente fez a conta, viu que não fechava no nível que estavam usando, e mudou de ferramenta ou abordagem. Isso é skin in the game. É o cara com dinheiro real na mesa tomando decisão real.

Compare isso com o analista de bancão que nunca tocou uma linha de código na vida te dizendo que "IA vai revolucionar tudo" enquanto recomenda ação de empresa que queima caixa.

A pergunta que fica é: se até o Chamath — um cara com recursos praticamente ilimitados — achou que a conta de tokens era alta demais, o que vai acontecer quando as empresas médias brasileiras tentarem escalar essas ferramentas?

Pensa nisso antes de sair comprando a narrativa bonita de que IA é só alegria e produtividade infinita. Todo almoço tem uma conta. E nessa mesa, a conta tá chegando em tokens.