Howard Marks é um daqueles caras que, quando abre a boca, você deveria no mínimo tirar o fone do ouvido e prestar atenção. Cofundador da Oaktree Capital, o sujeito navega mercados de crédito desde antes de a maioria dos "especialistas" do Twitter ter nascido. E na quinta-feira ele foi à CNBC soltar uma frase que parece reconfortante — mas que, se você mastigar direito, tem gosto de aviso de incêndio.
"Não existe um problema sistêmico com o crédito privado."
Pronto. Manchete bonita. Pode dormir tranquilo, né?
Porra nenhuma.
O que ele realmente disse
Marks não é idiota. Ele sabe que a frase bonita é o aperitivo. O prato principal veio logo depois: o mercado de crédito privado (direct lending) explodiu de praticamente zero lá por 2011 para mais de 1 trilhão de dólares hoje. Um trilhão. Deixa eu soletrar: US$ 1.000.000.000.000.
Quando qualquer coisa cresce assim — com essa velocidade, com dinheiro fácil, com juros que ficaram no chão por mais de uma década — você sabe o que acontece. Entra gente que não sabe o que está fazendo. Entram empréstimos que nunca deveriam ter sido feitos. Entra a euforia que transforma analista de crédito em vendedor de carro usado.
E aí Marks puxou a citação que todo mundo deveria tatuar no braço:
"Os piores empréstimos são feitos nos melhores tempos."
É banking 101. É a lição que o mercado reensina a cada ciclo — e que a cada ciclo uma nova geração de gênios ignora.
O cenário já está rachando
Não é teoria. Já temos evidências concretas.
A Tricolor e a First Brands — ambas ligadas ao setor automotivo — colapsaram. Os empréstimos para empresas de software estão no radar vermelho, porque todo mundo acordou para o fato de que a inteligência artificial pode simplesmente dizimar modelos de negócio que pareciam sólidos há dois anos.
E o dado mais revelador: investidores resgataram quase 8% do fundo flagship de crédito privado da Blackstone no último trimestre. Oito por cento. Num fundo que supostamente era o porto seguro dos "sofisticados".
Quando o dinheiro esperto começa a sair pela porta dos fundos, você não fica parado na sala de estar admirando a decoração.
A metáfora de Buffett que Marks roubou (com razão)
Marks citou o Oráculo de Omaha: "Quando a maré baixa, descobrimos quem estava nadando pelado."
E é exatamente isso que vai acontecer com o crédito privado. A questão não é se vai acontecer. É quando.
Marks foi honesto: ele não sabe quando o ciclo vira. E aí veio a segunda bomba de sabedoria:
"As coisas que afetam o mundo dos investimentos de forma tão profunda são justamente aquelas que não foram previstas. Se pudessem ser antecipadas, ajustadas e precificadas... não teriam esse efeito cataclísmico."
Lê de novo. Devagar.
Isso é Nassim Taleb com sotaque de Wall Street. É o Cisne Negro traduzido para a linguagem de um gestor de US$ 190 bilhões. As crises que destroem patrimônio não vêm com aviso prévio. Não têm CNPJ. Não mandam e-mail.
O que isso significa pra você
Olha, se você tem dinheiro em fundos de crédito privado — e muita gente no Brasil tem, via FIDCs, fundos de crédito estruturado e afins — a mensagem de Marks não é "venda tudo". A mensagem é: saiba onde seu dinheiro está emprestado.
Quem fez a análise de crédito? Qual a qualidade dos devedores? Qual o covenant? Qual o colateral?
Se o seu assessor não sabe responder essas perguntas, ou se a resposta for "confia que o fundo é da gestora X", você está nadando pelado e a maré ainda está alta.
O crédito privado não é vilão. É uma classe de ativo legítima. Mas 17 anos de tempos bons criaram um exército de gestores que nunca viram sangue. Que nunca tiveram que cobrar um devedor que não paga. Que nunca sentiram o estômago revirar com um default de verdade.
Quando a merda bater no ventilador — e ela vai bater — a diferença entre o gestor que fez análise decente e o que surfou a onda de dinheiro fácil vai ser a diferença entre sobreviver e virar manchete.
Howard Marks sabe disso. A pergunta é: e você, tá preparado pra quando a maré baixar?