Tem um jogo velho no mercado financeiro que nunca sai de moda.
Funciona assim: você abaixa a barra. Convence o mercado de que a expectativa é baixa. Aí a empresa entrega alguma coisa mediana. E todo mundo comemora como se fosse título mundial.
É o equivalente financeiro de reprovar no semestre, repetir o ano, e aí na recuperação tirar 5,1 — e o pai jogar confete.
Foi exatamente isso que aconteceu com o HSBC essa semana.
Os números, sem filtro
O banco reportou lucro antes de impostos de US$ 29,91 bilhões para o ano inteiro. Bateu a estimativa dos analistas de US$ 28,86 bilhões. Receita foi a US$ 68,27 bilhões, também acima da previsão.
Aí vem o detalhe que a manchete tenta esconder: o lucro caiu 7,4% em relação ao ano anterior.
Sete vírgula quatro por cento. Em dólares, estamos falando de um buraco considerável no bolso dos acionistas.
Mas ei, "bateu as estimativas." Passa a faixa, toca o funk, acende o sinalizador.
Nassim Taleb já explicou esse fenômeno com uma elegância cruel: o mercado não avalia realidade, avalia surpresa relativa. Se o consenso espera o pior, qualquer coisa acima disso vira notícia positiva. É o mesmo mecanismo psicológico que faz um político corrupto parecer "o menos pior."
Você não precisa ser bom. Só precisa ser menos ruim do que o esperado.
O que realmente está acontecendo dentro do HSBC
Vamos tirar o terno e ver o corpo.
A receita cresceu 4%. Isso é real. O braço de gestão de patrimônio (wealth management) e os negócios em Hong Kong performaram bem. Até aí, ok.
Mas o quarto trimestre é onde a coisa fica interessante — e suspeita. O lucro do período saltou pra US$ 6,8 bilhões, US$ 4,5 bilhões a mais que um ano antes. Parece explosivo, né?
Só que esse número foi inflado por "itens favoráveis pontuais ligados a alienações de negócios." Em bom português: venderam ativos, embolsaram o lucro contábil, e colocaram isso na vitrine como performance operacional.
Isso tem nome no mundo real: window dressing. É maquiagem. É o Breaking Bad do balanço patrimonial — você transforma uma operação suja numa narrativa limpa pra quem não lê as notas de rodapé.
O elefante no saguão do banco
O CEO Georges Elhedery falou em "ação decisiva e execução rápida." Lindo. Mas quando a CNBC perguntou sobre corte de empregos, a resposta foi digna de político em época de eleição.
Ele disse que o banco quer reduzir custos de folha de pagamento em cerca de 8%, mas que não há "metas específicas de redução de headcount."
Tradução: vai cortar gente sim, mas não quer dizer esse número em voz alta porque o sindicato está ouvindo.
Segundo a Bloomberg, o HSBC também planeja usar o ciclo de bônus para empurrar pra fora os funcionários de menor desempenho — especialmente em investment banking e wealth management. Inclusive diretores-gerentes.
Isso é gestão ou é faxina corporativa disfarçada de meritocracia?
Pode ser os dois. E provavelmente é.
Hang Seng: privatização ou controle dos danos?
No dia 26 de janeiro, o HSBC completou a privatização do Hang Seng Bank, retirando as ações da bolsa de Hong Kong. O banco vendeu a narrativa de que era "melhor uso do capital do que recompra de ações."
Talvez. Mas privatizar um ativo num momento de incerteza geopolítica crescente no eixo China-Hong Kong também pode ser uma forma de retirar exposição pública de um ativo que pode virar problemático. Menos olhos, menos perguntas.
Morningstar acha que as sinergias vão aparecer "gradualmente no médio prazo." Tradução corporativa para: "não sabemos quando, mas soa bem."
O que o investidor inteligente faz com isso?
Nada de impulsivo. Mas tampouco de ingênuo.
O HSBC anunciou meta de retorno sobre patrimônio tangível (RoTE) de 17% ou mais entre 2026 e 2028. Hoje está em 13,3%. A distância entre onde estão e onde prometem chegar exige execução impecável num ambiente macro que está longe de ser previsível.
Taxas de juros, tensão geopolítica na Ásia, regulação em Hong Kong, e um CEO ainda em fase de "provar que é bom." São muitas variáveis pra apostar num discurso de PowerPoint.
Warren Buffett tem uma frase que cabe aqui como uma luva: "Só quando a maré baixa é que você descobre quem estava nadando pelado."
O HSBC está com a sunga no lugar por enquanto. Mas a maré ainda não baixou de verdade.
Você está analisando os resultados do seu portfólio com esse mesmo nível de escrutínio — ou está se contentando em "bater a estimativa" da sua própria mediocridade?