"Nós já deslocamos pessoas por causa da IA — e oferecemos outros empregos a elas."

Leia de novo. Devagar.

Essa frase saiu da boca de Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, o maior banco do planeta por valor de mercado, numa reunião com investidores na segunda-feira. E foi dita com a naturalidade de quem pede um café sem açúcar.

Bem-vindo ao admirável mundo novo do corporate speak, onde demissão virou "redeployment" e corte de pessoal virou "rewiring para a era da IA".

O que aconteceu de verdade

Os números, como sempre, contam a história que o discurso bonito tenta esconder.

O JPMorgan tem 318.512 funcionários — número praticamente estável no último ano. Mas por baixo dessa estabilidade aparente, o bicho pegou: a área de operações perdeu 4% do quadro, suporte perdeu 2%. Enquanto isso, a turma de "geração de receita" e atendimento a clientes cresceu 4%.

Traduzindo do economês: robô entrou, humano de back-office saiu. E parte desse pessoal foi "realocado" para funções de frente. Quem não conseguiu se encaixar? Bem, o comunicado não fala sobre isso com a mesma empolgação.

O banco reduziu em 11% o custo por unidade no combate a fraudes. Cada funcionário de operações agora cuida de 6% mais contas. Os engenheiros de software ficaram 10% "mais eficientes". Números lindos num slide de PowerPoint para investidor aplaudir.

Mas porra, vamos ser honestos: "eficiência" no linguajar corporativo quase sempre significa menos gente fazendo mais trabalho.

O orçamento de US$ 20 bilhões e a boca faminta da IA

O JPMorgan tem o maior orçamento de tecnologia do setor bancário: quase US$ 20 bilhões por ano. Usa modelos da OpenAI e da Anthropic no seu portal interno de IA. Dobrou os casos de uso de IA generativa só neste ano, com foco em atendimento ao cliente e na própria equipe de tecnologia.

Jeremy Barnum, o CFO, apresentou isso tudo com aquela cara de quem mostra as notas do filho na reunião de pais. O banco quer ser "fundamentalmente reconfigurado" para a era da inteligência artificial.

E aqui é onde a coisa fica interessante — e um pouco sinistra.

O experimento mental que Dimon não respondeu

Quando um analista perguntou se ele temia desemprego em massa por causa da IA, Dimon fez algo que CEOs adoram fazer: respondeu com uma pergunta filosófica em vez de uma resposta concreta.

"E se caminhões autônomos fossem introduzidos da noite pro dia? Você faria isso sabendo que colocaria 2 milhões de pessoas na rua? E que o próximo emprego delas paga US$ 25 mil por ano, empilhando prateleiras?"

Bela reflexão, Jamie. Muito thoughtful. Muito Matrix — o Arquiteto explicando o sistema enquanto ele mesmo opera a máquina.

Porque é exatamente isso que o JPMorgan está fazendo, só que em câmera lenta. Não é da noite pro dia, é trimestre a trimestre. Não são caminhoneiros, são analistas de operações, pessoal de suporte, gente que processava documentos. E o "próximo emprego" que o banco oferece pode ser tão distante da função original quanto estocar prateleiras é de dirigir um caminhão.

O que ninguém está falando

Dimon tem razão num ponto: governos e sociedade precisam pensar nisso agora. Mas é um tanto conveniente que o cara que está causando o deslocamento seja o mesmo que pede para a sociedade resolver o problema, não é?

É aquele velho truque: privatiza o lucro, socializa o custo.

Nassim Taleb diria que é a definição perfeita de ausência de skin in the game. Dimon não vai perder o emprego pra IA. Os 318 mil funcionários dele? Alguns já perderam. Outros vão perder.

E a porta-voz do banco? "Declinou de elaborar" sobre os planos de realocação. Clássico.

Dimon comparou a IA à eletricidade e à prensa de Gutenberg. Pode ser. Mas a eletricidade não fez um comunicado de imprensa dizendo que estava "realocando" as velas. Simplesmente as apagou.

A pergunta que fica: quando o seu emprego entrar na mira do "redeployment", quem é que vai te oferecer o "outro trabalho"?