Sabe aquela cena do Coringa em que ele pergunta "você quer saber como eu ganhei essas cicatrizes?" Pois é. A Lucid Motors poderia fazer a mesma pergunta aos investidores — só que as cicatrizes dela são de US$ 2,7 bilhões de prejuízo em 2025 e um fluxo de caixa livre negativo de US$ 3,8 bilhões. E o que a empresa faz? Sobe no palco do primeiro investor day em quase cinco anos e anuncia planos para... robotáxis.

Porra, tem que ter coragem.

O show de quinta-feira

A Lucid reuniu dezenas de investidores e analistas de Wall Street em Nova York na quinta-feira para apresentar o que chamou de "aceleração rumo à lucratividade". O cardápio incluiu:

  • Veículos de médio porte — um novo modelo previsto para o final deste ano
  • Robotáxis de dois lugares — mostraram até um carro-conceito, mas sem data concreta
  • Expansão internacional — Europa e Arábia Saudita no radar
  • Assinatura de software de direção autônoma — entre US$ 69 e US$ 199 por mês, lançamento previsto para início de 2027
  • Meta de US$ 1 bilhão em receita anual não-veicular — via assinaturas recorrentes

O CEO interino Marc Winterhoff — que assumiu depois que o fundador Peter Rawlinson saiu inesperadamente no ano passado — disse que a "estrela guia" da empresa é "acelerar rumo à lucratividade". A meta? Fluxo de caixa positivo até o final desta década.

Quando perguntado sobre o ano exato, ninguém quis abrir o bico.

O mercado não comprou — literalmente

Enquanto os executivos vendiam sonhos no palco, a ação fez o que a ação faz quando o mercado cheira fumaça: caiu 7,9%, fechando a US$ 9,84. Durante boa parte do evento, o papel operava entre 6% e 8% no vermelho.

E olha que a empresa deu os planos mais detalhados de produto e expansão desde que abriu capital. Não adiantou.

O analista Ben Kallo, da Baird, foi diplomático na nota: "O cenário de curto prazo para EVs continua desafiador, com ventos contrários como tarifas e políticas públicas silenciando o sentimento dos investidores." Traduzindo do economês para o português da rua: ninguém quer pagar pra ver.

A parceria com a Uber e o elefante saudita na sala

Um ponto que chamou atenção foi o anúncio de expansão da parceria com a Uber. O presidente e COO da Uber, Andrew Macdonald, subiu ao palco com Winterhoff para confirmar que a colaboração — anunciada anteriormente para robotáxis — agora incluirá os novos veículos de médio porte.

Faz sentido estratégico? Faz. Mas convenhamos: a Tesla já está anos à frente nessa corrida, a Waymo da Alphabet já opera robotáxis em cidades americanas, e a Lucid está mostrando um carro-conceito de dois lugares sem prazo definido. Winterhoff chamou o robotáxi dedicado de "meta de médio prazo". No dicionário corporativo, "médio prazo" pode significar qualquer coisa entre amanhã e nunca.

Enquanto isso, quem segura a conta é o fundo soberano da Arábia Saudita, o PIF, maior acionista da Lucid. E aqui vai um detalhe que vale ouro: o PIF mudou sua estratégia de investimento na empresa — saiu de aporte de capital para crédito rotativo. Quando o seu maior investidor passa de sócio entusiasmado para banqueiro cauteloso, talvez o recado esteja claro.

Autonomia em 2029, receita em algum momento, lucro... quem sabe

A empresa promete veículos capazes de se dirigirem sozinhos "sob certas circunstâncias" até 2029. Kay Stepper, VP de sistemas avançados de direção, disse que "autonomia desempenha um papel desproporcional no futuro da Lucid."

Desproporcional é a palavra certa. A empresa quer expandir seu mercado endereçável de US$ 40 bilhões para algo muito maior com autonomia e veículos de médio porte. Bonito no PowerPoint.

Mas como diria Nassim Taleb: não me diga o que você pensa, me mostre seu portfólio. E o portfólio da Lucid hoje mostra um prejuízo 31% maior que o do ano anterior, com um fluxo de caixa negativo que daria calafrio em qualquer CFO com noção de realidade.

A pergunta que fica é simples: se a Tesla — com escala, marca, infraestrutura e Elon Musk para o bem ou para o mal — ainda apanha no mercado de EVs, o que faz você acreditar que a Lucid vai chegar lá com metade dos recursos e o dobro das promessas?