Tem uma cena no filme Up in the Air em que o George Clooney voa pelo país demitindo pessoas com um sorriso no rosto. Profissional, limpo, cirúrgico. A empresa terceiriza a dor. Ninguém olha nos olhos de quem vai pra rua.

Pois é. A Meta decidiu que essa é a temporada de limpeza. De novo.

A notícia que ninguém quer ler (mas precisa)

O The Guardian reportou que a Meta — sim, aquela mesma que em 2023 fez o "Ano da Eficiência" e demitiu mais de 20 mil pessoas — está planejando demissões em larga escala. O motivo desta vez? Os custos crescentes com inteligência artificial estão comendo o caixa vivo.

Mark Zuckerberg, o mesmo cara que torrou dezenas de bilhões num metaverso que ninguém pediu, agora está dobrando a aposta em IA. E pra isso, precisa de dinheiro. Muito dinheiro. E quando um CEO do Vale do Silício precisa de dinheiro, adivinha quem paga a conta?

Os funcionários.

Sempre os funcionários.

O jogo de sempre: demite humano, compra GPU

Olha a lógica perversa desse negócio. A Meta reportou lucros recordes nos últimos trimestres. As ações subiram como foguete em 2023 e 2024. Wall Street aplaudiu de pé. Os analistas de banco grande — aqueles de terno e sorriso ensaiado — colocaram "buy" em tudo que é relatório.

Mas agora o Zuck olha pro balanço e pensa: "Se eu demitir mais uns milhares de pessoas, consigo comprar mais uns datacenters de IA."

E é exatamente isso que está acontecendo.

Os gastos de capital da Meta com infraestrutura de IA são absurdos. Estamos falando de dezenas de bilhões de dólares por ano. Chips da Nvidia, clusters de servidores, energia elétrica pra alimentar aquele monstro. Cada modelo de linguagem novo custa uma fortuna pra treinar.

Então a equação é simples: corta cabeça de gente → redireciona pra silício.

Skin in the game? Cadê?

Aqui entra o Taleb. O conceito de skin in the game é brutal na sua simplicidade: quem toma a decisão deveria sofrer as consequências dela.

O Zuckerberg tem skin in the game? Tecnicamente, sim — ele é o maior acionista. Mas vamos ser honestos: o cara vale mais de 150 bilhões de dólares. Se a aposta em IA der errado, ele perde uns bilhões no papel e continua andando de hidrofólio no lago Tahoe.

Quem perde de verdade? O engenheiro de 35 anos com hipoteca, filho na escola e stock options que viraram pó porque foram demitidos antes do vesting. O gerente de produto que achava que tinha emprego estável numa empresa "top tier".

Essa galera não tem hidrofólio, parceiro. Tem boleto.

O padrão que se repete

Isso não é exclusividade da Meta. Google, Amazon, Microsoft — todas fizeram ondas de demissões nos últimos dois anos enquanto simultaneamente anunciavam investimentos bilionários em IA.

É um padrão. E é importante entender o que ele revela sobre as prioridades do capitalismo de plataforma:

  1. Pessoas são custo variável. Máquinas são investimento.
  2. Wall Street recompensa cortes. Ação sobe toda vez que anuncia layoff. É doentio, mas é real.
  3. A narrativa muda, a lógica não. Ontem era "metaverso vai mudar o mundo". Hoje é "IA vai mudar o mundo". Amanhã vai ser outra coisa. O que não muda: quem tem poder decide, quem não tem sofre.

E o que isso significa pra você?

Se você trabalha em tech, acorda. Diversifica sua renda. Não bota todos os ovos na cesta do emprego corporativo, não importa o quão bonito seja o escritório ou quantas frutas grátis tenha no refeitório.

Se você é investidor, presta atenção no seguinte: empresas que demitem pra financiar capex de IA estão fazendo uma aposta enorme. Se a IA entregar o retorno prometido, pode ser genial. Se não entregar... bem, a Meta já nos mostrou o que acontece quando uma aposta não entrega (RIP Metaverso, 2021-2023).

E se você é só um cidadão observando o circo? Entenda uma coisa: a corrida pela IA é o novo corrida armamentista. Quem não investir, morre. Quem investir demais no lugar errado, também morre. O cemitério do Vale do Silício está cheio de empresas que apostaram tudo na tecnologia errada, na hora errada.

A diferença é que o Zuckerberg pode se dar ao luxo de errar.

Você pode?