Tem uma cena no filme Margin Call em que o CEO do banco, interpretado por Jeremy Irons, olha pros diretores e diz: "Existem três formas de ganhar dinheiro nesse negócio — ser o primeiro, ser o mais inteligente, ou trapacear."
O mercado global de M&A (fusões e aquisições, pra quem não fala economês de Wall Street) escolheu a primeira opção. Todo mundo quer ser o primeiro. Todo mundo quer fechar o deal antes do vizinho. E o resultado? Um recorde histórico de US$ 4,9 trilhões em negócios fechados em 2025, segundo a PitchBook. Superou até o pico de 2021, aquele ano em que o dinheiro era mais barato que água de torneira.
E o mercado aposta que 2026 vai ser mais do mesmo.
O FOMO corporativo entrou na sala
Uma pesquisa da Bain & Company com 300 executivos de M&A mostrou que 80% pretendem manter ou aumentar o ritmo de negociações este ano. A Goldman Sachs, que liderou o ranking global de M&A no ano passado — assessorando quase 40 deals num volume total de US$ 1,48 trilhão — ouviu de seus 600 clientes corporativos que "escala e crescimento estratégico" são os motores por trás das decisões.
Jake Henry, co-líder global da prática de M&A da McKinsey, resumiu o sentimento de forma cirúrgica: "Quando as mudanças bruscas nas políticas comerciais se transformaram num padrão menos ameaçador, o alívio virou confiança — e a confiança virou medo de ficar de fora."
Leu isso? Releia.
É FOMO corporativo, meu amigo. O mesmo mecanismo psicológico que fez seu cunhado comprar Dogecoin no topo tá operando nos conselhos de administração das maiores empresas do mundo. Só que agora em vez de memecoins, são aquisições bilionárias.
A inteligência artificial como pretexto perfeito
Todo mundo precisa de uma narrativa pra justificar o cheque gordo. E a narrativa da vez é a IA.
Empresas estão se reagrupando, reavaliando portfólios, comprando startups de tecnologia e concorrentes — tudo em nome da "transformação digital" e da "disrupção tecnológica". Suzanne Kumar, VP executiva de M&A da Bain, disse que "empresas precisam urgentemente se reinventar para se antecipar às grandes forças de disrupção tecnológica, economia pós-globalização e mudanças nas fontes de lucro."
Bonito no PowerPoint. Na prática, a maioria dessas aquisições movidas por hype termina como aquelas fusões da era dot-com: write-offs gigantescos, demissões em massa e um CEO pedindo desculpas em conference call.
Não estou dizendo que IA não importa. Importa pra caralho. Mas existe uma diferença entre comprar uma empresa porque ela de fato complementa sua estratégia e comprar porque seu board tá com medo de parecer ultrapassado no próximo relatório anual.
O elefante na sala: o caixa tá secando
E aqui vem a parte que ninguém quer destacar na manchete.
A proporção de capital alocado para M&A atingiu o menor nível em 30 anos em 2025, segundo a própria Bain. As empresas estão torrando caixa em dividendos, recompras de ações, capex e P&D. Sobra cada vez menos dinheiro discricionário pra fazer deals.
Pensa nisso: o volume de negócios bateu recorde, mas o dinheiro disponível pra financiá-los bateu o fundo do poço. Isso é como dar uma festa de arromba no cartão de crédito estourado.
O índice de sentimento de M&A do Boston Consulting Group subiu pra 75 — mas ainda tá bem abaixo da média histórica de 100. Traduzindo: o otimismo existe, mas tá nervoso. Tá com as mãos suando.
O que isso significa na prática
Executivos vão precisar ser cirúrgicos. Os dias de "comprar primeiro, pensar depois" acabaram — pelo menos pra quem ainda tem juízo. Com capital escasso e custo de dívida que, apesar dos cortes de juros dos bancos centrais, não voltou pros níveis de 2020-2021, cada aquisição precisa se pagar de verdade.
Os vencedores serão os que comprarem com disciplina de sniper, não com mentalidade de metralhadora.
Os perdedores? Vão ser os que entraram no FOMO, pagaram caro demais, e daqui a dois anos vão estar explicando pro mercado por que aquela aquisição "estratégica" de IA não gerou um centavo de sinergia.
A Goldman Sachs tá lucrando horrores assessorando esses deals. Eles ganham de qualquer jeito — o deal dando certo ou não. Skin in the game zero.
E você, que tá investido nas empresas que estão fazendo essas aquisições bilionárias — você checou se o management tá comprando crescimento real ou comprando narrativa?
Porque quando a maré baixa, a gente descobre quem tava nadando pelado.