Sabe aquela cena do Batman — O Cavaleiro das Trevas — em que o Coringa queima uma montanha de dinheiro e diz que "não é sobre o dinheiro, é sobre mandar uma mensagem"?

Pois é. A Oracle acabou de mandar a mensagem dela pro mercado. E o mercado, como bom cachorro de Pavlov, salivou na hora.

Os números que fizeram Wall Street aplaudir de pé

Resultados do terceiro trimestre fiscal (encerrado em fevereiro de 2026):

  • Lucro por ação ajustado: $1,79 vs. $1,70 esperado
  • Receita: $17,19 bilhões vs. $16,91 bilhões esperado
  • Receita total de cloud: $8,9 bilhões — alta de 44%
  • Receita de infraestrutura cloud: $4,9 bilhões — alta de 84%

Crescimento de receita geral de 22% ano contra ano. Lucro líquido saltou de $2,94 bilhões para $3,72 bilhões. E a gestão ainda levantou o guidance de receita para o ano fiscal de 2027 em $1 bilhão — de $89 bilhões para $90 bilhões, contra os $86,6 bilhões que os analistas esperavam.

A ação subiu 8% no after-market.

Tudo lindo. Tudo maravilhoso. Confete e serpentina.

Agora vamos falar sobre o que ninguém quer falar.

O elefante na sala tem nome: fluxo de caixa negativo

A Oracle reportou $13,18 bilhões negativos em fluxo de caixa livre nos últimos 12 meses.

Leu direito? Negativo. Treze bilhões. De dólares.

A empresa está queimando caixa como se não houvesse amanhã para construir data centers e alugar GPUs da Nvidia. Anunciou planos de levantar entre $45 e $50 bilhões só neste ano fiscal para expandir capacidade de infraestrutura cloud.

Alugar chips de GPU dá uma margem de lucro menor do que vender licença de software — aquele modelo antigo e gordo que fez Larry Ellison bilionário. É como trocar um restaurante com margem de 40% por um food truck que fatura mais, mas sobra menos no bolso.

E aqui mora o problema que Nassim Taleb adoraria dissecar: a Oracle está apostando pesadíssimo que a demanda por IA vai continuar nesse ritmo. Se a música parar, a dívida fica. E a dívida é gorda.

Os $553 bilhões que mudam o jogo (ou não)

O número mais impressionante do trimestre não foi a receita. Foi o backlog.

As obrigações de desempenho remanescentes (RPO) — basicamente, contratos assinados que ainda serão executados — mais que quadruplicaram para $553 bilhões comparado ao ano anterior.

Quinhentos e cinquenta e três bilhões de dólares em contratos. Porra.

A Oracle fez questão de acalmar os nervosos explicando que boa parte desses contratos de IA de grande escala já tem financiamento garantido — ou o cliente paga adiantado pelas GPUs, ou o próprio cliente compra as GPUs e entrega pra Oracle operar. Ou seja: a empresa não precisa levantar dinheiro extra para honrar esses contratos.

Se isso é verdade — e o mercado parece estar acreditando — é uma baita proteção contra o cenário catastrófico.

O contexto que o mercado convenientemente esqueceu por 5 minutos

A ação da Oracle despencou mais de 50% desde as máximas de setembro. Em 2026, já caiu 23%, enquanto o S&P 500 recuou menos de 1%.

O mercado castigou a empresa por duas razões: medo generalizado com o hype de IA e terror específico com a montanha de dívida acumulada para financiar o buildout.

Um trimestre bom não resolve isso. Resolve a narrativa de curto prazo, acalma quem estava com o dedo no gatilho pra vender, mas a tese de longo prazo continua sendo uma aposta binária: ou a demanda por infraestrutura de IA é real e sustentável, ou a Oracle vai ter que explicar o que fazer com dezenas de bilhões em dívida e data centers subutilizados.

É como aquela frase que o Charlie Munger repetia: "Mostre-me os incentivos e eu te mostro o resultado." A Oracle tem incentivo para pintar o quadro mais bonito possível. O investidor tem a obrigação de olhar além da pintura.

A questão que ninguém está fazendo

O data center em Abilene, Texas — aquele projeto gigante com a OpenAI — supostamente está "no cronograma", segundo a própria Oracle. Mas a Bloomberg reportou que planos de expansão do site foram abandonados. A Oracle disse que as notícias estavam incorretas.

Alguém está mentindo. Ou no mínimo, alguém está sendo criativo com a verdade.

Você vai acreditar na empresa que precisa desesperadamente manter a narrativa viva, ou no veículo de imprensa que não tem skin in the game?

Pensa nisso antes de apertar o botão de compra.