Tem uma cena no filme Scarface em que o Tony Montana olha pro mundo e diz: "The world is yours." Pois é. David Ellison, CEO da Paramount Skydance, parece ter acordado com essa mesma energia numa segunda-feira qualquer de março.

A Paramount anunciou que vai fundir HBO Max e Paramount+ num único serviço de streaming depois que a aquisição da Warner Bros. Discovery for aprovada pelos reguladores. Um monstro de 200 milhões de assinantes. Leia de novo: duzentos milhões. Isso é quase o tamanho da Netflix em seus melhores dias.

O negócio por trás do negócio

Semana passada, Paramount e WBD fecharam acordo de aquisição a US$ 31 por ação — depois que a Netflix, que estava na briga, resolveu pular fora do ringue. A Netflix desistiu. Repita isso pro seu amigo que acha que a Netflix é imbatível.

E agora Ellison vai na call com investidores e solta a bomba: as duas plataformas viram uma só.

Detalhes de preço? Nenhum. Nome do serviço? Ninguém sabe. Estrutura? "A gente vê depois."

Porra, é sério isso? Você anuncia a maior fusão de streaming da história e não tem nem o nome do produto? Isso é coisa de quem está mais preocupado em fazer barulho no mercado do que em entregar resultado. Ou — sendo generoso — é alguém esperto o suficiente pra não se comprometer com números antes de ver como os reguladores vão reagir.

A HBO que não morre nunca

Se tem uma coisa que Ellison falou que fez sentido foi: "HBO should stay HBO."

E ele está coberto de razão. A HBO é uma das marcas mais fortes da história do entretenimento. The Sopranos, The Wire, Game of Thrones, Succession, The Last of Us. Enquanto todo mundo corria pra fazer conteúdo descartável, a HBO fazia arte. Não arte de museu que ninguém assiste — arte que paga as contas.

Agora, vamos relembrar a via-crúcis que essa marca já sofreu nas mãos de executivos brilhantes:

  • 2010: HBO Go. Ok.
  • 2015: HBO Now. Porque "Go" era confuso, aparentemente.
  • 2018: AT&T compra a Time Warner e começa a mexer nas coisas.
  • 2020: Nasce HBO Max. Faz sentido.
  • 2023: David Zaslav, gênio incompreendido, tira o HBO do nome e chama de "Max". Porque quem precisa de uma das marcas mais reconhecidas do planeta, né?
  • 2025: Zaslav e Casey Bloys voltam atrás e restauram o nome HBO Max. Surpresa de ninguém.

Isso, meus amigos, é o equivalente corporativo de trocar a camisa do time no meio do jogo. Duas vezes. Sem motivo.

A tendência agora é que HBO vire uma sub-marca dentro do serviço combinado. Casey Bloys, que manda na HBO, tem contrato até 2027. Ou seja, vai ser ele quem vai ter que navegar essa transição — ou será devorado por ela.

O trunfo dos esportes

Aqui a coisa fica interessante de verdade. A fusão junta TNT Sports com CBS Sports. Estamos falando de:

  • NFL
  • MLB
  • NHL
  • March Madness
  • NASCAR
  • The Masters
  • Roland Garros
  • College Football

Tudo. Numa. Plataforma. Só.

Os executivos da Paramount disseram que não receberam nenhum sinal dos reguladores de que isso poderia gerar preocupações antitruste. O que é, no mínimo, ingênuo. Quando você concentra esse volume de direitos esportivos premium num único player, alguém em Washington vai levantar a mão. É questão de quando, não de se.

O que isso significa pro seu bolso

Se você é investidor, a pergunta que importa é: a Paramount consegue integrar essa bagunça sem destruir valor?

Fusões de mídia têm um histórico péssimo. A AOL-Time Warner é o exemplo clássico do desastre. A própria fusão da Discovery com a WarnerMedia foi um parto complicado que destruiu bilhões em valor de mercado.

Nassim Taleb diria: "Quem está com skin in the game aqui?" Ellison tem. Ele comprou a Paramount com dinheiro próprio (e de Larry Ellison, papai). Então pelo menos não é um CEO de aluguel brincando com dinheiro dos outros.

Mas 200 milhões de assinantes numa plataforma que ainda não tem nome, não tem preço e não tem aprovação regulatória? Isso não é um plano. É uma promessa.

E promessa, no mercado, vale menos que papel higiênico usado.

A pergunta que fica: você apostaria seu dinheiro numa empresa que acabou de comprar outra empresa que acabou de mudar o nome do produto pela quarta vez em cinco anos — e que agora promete que "dessa vez vai ser diferente"?