Sabe aquela cena do Coringa em que ele queima a montanha de dinheiro e diz que "não é sobre o dinheiro, é sobre mandar uma mensagem"?
Pois é. O mercado de carros usados nos Estados Unidos acabou de mandar a dele.
O índice que Wall Street espia de canto de olho
A Cox Automotive soltou na sexta-feira o número do Manheim Used Vehicle Value Index — o termômetro mais respeitado do mercado de veículos usados nos EUA. Esse índice rastreia preços em leilões de atacado, onde os dealers vão pescar estoque antes de repassar pro consumidor final.
Resultado de fevereiro: alta de 4% na comparação anual, batendo 212,3 pontos. Isso é 0,8% acima de janeiro e o nível mais alto desde setembro de 2023.
Traduzindo do economês: os donos de concessionárias estão comprando carro usado como se fosse Black Friday de TV de 50 polegadas. Taxas de conversão de vendas subiram, indicando que o apetite tá real, não é blefe.
Jeremy Robb, economista-chefe da Cox, resumiu assim: "Desde o início de 2026, a demanda no Manheim está sólida. Na segunda metade de fevereiro, os preços subiram mais que o normal."
O combustível dessa fogueira? Restituição de imposto de renda
Nos EUA, a temporada de restituição do IRS (a Receita Federal de lá) é tipo o 13º salário brasileiro — o cidadão recebe aquele cheque gordo e a primeira coisa que pensa é: "vou trocar de carro."
A expectativa de restituições maiores em 2026 jogou gasolina — com o perdão do trocadilho — na demanda por veículos usados. Dealers, que não são bobos, anteciparam compras no atacado pra surfar a onda da temporada de vendas da primavera.
O preço médio de um carro usado listado em janeiro era de US$ 25.533. Caiu bastante dos mais de US$ 28.000 de 2022, quando o mundo pós-pandemia transformou qualquer Civic com 80 mil milhas num ativo mais disputado que Bitcoin em bull run.
Mas calma. Ainda tá caro pra porra na comparação histórica.
E aí chegou o elefante na sala: a guerra no Irã
Porque o mercado adora um plot twist, né?
A guerra dos EUA com o Irã — sim, isso está acontecendo — entra como o vilão inesperado da temporada. Robb, o economista da Cox, foi diplomático mas honesto: o conflito pode "frear o apetite do consumidor no curto prazo", especialmente com a alta nos preços da gasolina.
Pensa comigo: o cara recebe a restituição de imposto, vai animado pra concessionária, olha o preço do usado, olha o preço da gasolina, olha o noticiário com mísseis voando no Oriente Médio e... talvez compre um carro menor. Ou talvez espere mais um mês.
Robb projeta que o impacto negativo será mais forte no início de março, com recuperação gradual ao longo do mês. Basicamente, o mercado vai tomar um susto, respirar fundo e voltar a comprar — porque americano sem carro é como brasileiro sem celular: simplesmente não rola.
O que isso significa na prática
A Cox já tinha projetado no início do ano que o índice Manheim terminaria 2026 com alta de 2% sobre dezembro de 2025. Com fevereiro já mostrando 4% de alta anual, fica a pergunta: essa projeção conservadora vai segurar?
Preços de atacado puxam preços de varejo. Sempre foi assim. Se o dealer paga mais caro no leilão, ele repassa. Simples como a lei da gravidade.
Para quem investe, empresas como Carvana (CVNA) e todo o ecossistema de veículos usados — financiamento, seguros, peças — sentem diretamente essa dinâmica. Quando o preço do usado sobe, o ticket médio de financiamento sobe junto. A inadimplência pode subir também, especialmente se a gasolina cara apertar o orçamento familiar.
É o efeito dominó que nenhum analista de terno no YouTube vai te explicar direito.
A pergunta que não quer calar
O mercado de usados nos EUA está num limbo interessante: longe dos picos insanos da pandemia, mas ainda inflado em relação ao que era "normal" antes de 2020. A restituição de impostos dá um empurrão sazonal. A guerra no Irã puxa o freio de mão.
E o consumidor americano, espremido entre os dois, faz o quê?
A mesma coisa que faz sempre: parcela em 72 meses e reza pra tudo dar certo.
Skin in the game? Zero. Mas o dealer que comprou no atacado a 212 pontos do Manheim — esse sim tá com a pele no jogo.
E você, tá prestando atenção nos dominós ou tá ocupado assistindo guru de rede social falar de "renda passiva com carros"?