Sabe aquele personagem de filme de terror que já levou facada, tiro, caiu do prédio e ainda tá rastejando no chão tentando sobreviver? Pois é. Essa é a Spirit Airlines em 2026.
Na terça-feira, a companhia aérea que um dia foi o símbolo máximo do "voo baratão" nos Estados Unidos apresentou seu plano de reestruturação no tribunal de falências. E o plano é basicamente: cortar tudo que se mexe.
O cadáver ainda respira
Vamos aos fatos crus.
A Spirit está na sua segunda falência em menos de um ano. Leia de novo. Segunda. Em menos de doze meses. Isso não é tropeço, é queda livre sem paraquedas.
O CEO Dave Davis — que tem mais coragem do que juízo pra continuar nesse cargo — disse à CNBC que a companhia vai se concentrar em voar basicamente de quatro lugares: Fort Lauderdale, Orlando, região de Nova York e Detroit. O resto? "Vai ser uma parte ainda menor da rede", nas palavras diplomáticas dele.
Traduzindo do economês corporativo pra linguagem de gente: quase tudo fora desses hubs vai pro saco.
Voos de terça e quarta-feira que dão prejuízo? Cortados. Rotas transcontinentais com muita concorrência? Cortadas. Parte dos voos pra América Latina? Cortados. A Spirit vai operar como aquele bar que só abre sexta e sábado porque não paga a conta de luz da semana inteira.
Os números que doem
A dívida e obrigações de leasing vão cair de US$ 7,4 bilhões para US$ 2,1 bilhões após a reestruturação. Parece bonito no papel, né? Mas pensa comigo: a empresa precisou destruir quase 72% das suas obrigações pra ter uma chance de respirar. Isso não é reestruturação, é amputação.
O custo anualizado da frota vai ser reduzido em mais US$ 550 milhões — uma queda de 65% em relação a antes da falência do ano passado. E tem mais US$ 300 milhões em cortes de custos que não são de frota. Tradução: gente vai perder emprego. Muita gente.
O próprio Davis admitiu que o desgaste natural já reduziu o quadro de funcionários e que "é cedo demais pra dizer" se vai precisar demitir mais. Quando um CEO fala isso, pode apostar a casa que vai demitir mais.
A frota vai ser composta majoritariamente de aviões Airbus mais velhos, rejeitando os modelos NEO mais modernos e mais caros. Ou seja: a Spirit vai voar com os carros velhos do estacionamento porque não tem grana pros novos. A ironia de uma companhia aérea "do futuro" apostando em aviões do passado é quase poética.
O plot twist: premium na Spirit?
E aqui a coisa fica surreal.
A Spirit — a mesma Spirit que cobrava até pra você respirar dentro do avião — agora quer expandir assentos premium e de economia premium. Estão considerando adicionar uma terceira fileira do "Big Front Seat", o assento grandalão da frente.
É como se o Habib's anunciasse um menu degustação com harmonização de vinhos. Pode funcionar? Em tese, sim. Margens em assentos premium são melhores. Mas a marca Spirit está tão associada a "experiência miserável e barata" que convencer o passageiro a pagar mais vai exigir um milagre de marketing.
O fantasma da fusão
O advogado da Spirit, Marshall Huebner, deixou escapar uma pista suculenta: conversas com a Frontier Airlines e com o fundo de investimento Castlelake já aconteceram. Não deram em nada antes, mas ele insinuou que "uma combinação pode voltar à mesa".
Ou seja: se o plano solo não vingar, a Spirit pode acabar sendo engolida. E sinceramente? Talvez fosse o desfecho mais honesto.
A pergunta que ninguém quer fazer
A Spirit espera sair da falência na primavera ou início do verão americano. Otimista? Bastante.
Mas a pergunta real é outra: existe espaço no mercado americano pra uma ultra-low-cost em 2026? As grandes companhias já têm tarifas básicas competitivas. A Frontier já ocupa esse nicho. O consumidor pós-pandemia mostrou que prefere pagar um pouco mais por uma experiência menos degradante.
A Spirit é aquele lutador que se recusa a ficar no chão. Admiro a teimosia. Mas teimosia sem estratégia viável é só sofrimento prolongado.
Duas falências em um ano. Frota encolhendo. Rotas evaporando. Funcionários saindo.
Em algum momento, o mercado cobra a conta final. E dessa vez, não vai ter "Big Front Seat" que salve.