Tem um velho ditado no mercado que diz: "Quando o urubu começa a circular, alguém lá embaixo já não tá se mexendo."

O PayPal não tá morto. Mas porra, tá sangrando feio. E os urubus — perdão, os "compradores estratégicos" — já farejaram.

O fato nu e cru

A Bloomberg soltou na terça-feira que a Stripe, aquela fintech que todo mundo jurava que ia fazer IPO "no ano que vem" desde 2021, está em conversas iniciais para comprar o PayPal. Tudo ou em partes. Como quem vai no açougue e pede: "me dá o filé, e se o preço tiver bom, levo o boi inteiro."

As ações do PayPal saltaram quase 7% no dia. Sabe o que é isso? É o mercado dizendo: "Caramba, finalmente alguém vai fazer alguma coisa com esse defunto ambulante."

E olha que contexto bonito: o PayPal já perdeu mais de 19% só em 2026 e quase um terço do valor em 2025. A empresa trocou de CEO no começo do mês — trouxe o Enrique Lores, que vem da HP, porque aparentemente a solução pra uma empresa de pagamentos digitais em crise é trazer o cara que vendia impressora. Genial.

Stripe: de disruptora a predadora

Enquanto o PayPal definhou, a Stripe fez o caminho inverso.

Na mesma terça-feira do boato, a empresa bateu uma avaliação de US$ 159 bilhões após uma venda secundária de ações para funcionários e investidores. Pra colocar em perspectiva: há um ano, valia US$ 91,5 bilhões. Quase dobrou.

E não é só valuation inflado de startup com PowerPoint bonito. A Stripe disse que sua suíte de receita — aquela parte do negócio que vai além de processar pagamentos — deve atingir um run rate de US$ 1 bilhão ainda este ano. Em janeiro, comprou a startup de billing Metronome. E agora, aparentemente, quer o prêmio maior.

O John Collison, co-fundador da Stripe, disse ao Andrew Ross Sorkin que IPO não está nos planos. Que abrir capital agora iria "distrair do crescimento do produto."

Tradução em linguagem de gente normal: "Pra que fazer IPO se a gente pode usar nosso caixa e nosso poder pra simplesmente comprar os concorrentes?"

É a mentalidade do Thanos. Por que conquistar o universo planeta por planeta se você pode juntar todas as joias do infinito de uma vez?

O que isso realmente significa

Vamos além da manchete, porque é aqui que o circo financeiro te abandona.

O PayPal foi um dia a joia da coroa dos pagamentos digitais. Lembra quando era sinônimo de "pagar pela internet"? Pois é. Isso foi antes do Stripe, do Square (Block), do Apple Pay, do Google Pay, dos Pix da vida (no Brasil a gente sabe bem o que mata dinossauro). A competição comeu o PayPal vivo.

Agora, o que a Stripe estaria comprando?

  • Base de usuários massiva (mais de 400 milhões de contas)
  • Marca reconhecida globalmente (mesmo que desgastada)
  • Venmo — que sozinho é um negócio relevante no mercado americano
  • Infraestrutura de checkout que já está integrada em milhões de sites

O risco? Comprar uma empresa em declínio estrutural é diferente de comprar uma empresa barata. Warren Buffett já ensinou: "É melhor comprar uma empresa maravilhosa por um preço justo do que uma empresa justa por um preço maravilhoso." A pergunta de US$ 159 bilhões é: o PayPal é qual dos dois?

E tem o elefante na sala: como é que uma empresa privada de US$ 159 bilhões compra uma empresa pública que, mesmo depois da queda, tem um market cap robusto? Emissão de ações? Dívida? Fusão reversa? As conversas são "iniciais", o que no vocabulário de M&A pode significar qualquer coisa entre "trocaram meia dúzia de emails" e "já tem term sheet na mesa."

O sinal que ninguém quer ver

Quando startups começam a engolir incumbentes, o ciclo mudou. Não é mais David contra Golias. É o David que virou Golias e agora quer comprar a armadura do cara que ele derrubou.

Se a Stripe de fato levar o PayPal, será um dos movimentos mais simbólicos da história fintech. A disruptora comprando a disruptada.

Agora me diz: você ainda tem PayPal na carteira esperando um milagre, ou já entendeu que quando o comprador bate na porta, é porque o dono já perdeu o jogo?