Sabe aquele cara que entra no ringue no round 12, quando o lutador titular já tomou porrada a noite inteira, e a torcida espera um nocaute milagroso? Pois é. Esse é Michael Fiddelke, o novo CEO da Target, que assumiu o cargo em fevereiro e hoje tem que subir no palco em Minneapolis para convencer Wall Street de que o gigante varejista americano ainda tem pulso.
O que esperar dos números
A Target reporta hoje os resultados do quarto trimestre fiscal de 2025 (o trimestre de Natal, que é a Super Bowl do varejo). O consenso de analistas, segundo a LSEG:
- Lucro por ação esperado: US$ 2,15
- Receita esperada: US$ 30,48 bilhões
Parece dinheiro pra caramba, né? E é. Mas o problema é que esses números vêm abaixo do que a empresa reportou no mesmo período do ano anterior. A própria Target já avisou que espera queda de vendas na casa de "low single digit" — traduzindo do economês: caiu de 1% a 3%, mais ou menos.
O guidance de lucro ajustado para o ano fiscal completo de 2025 ficou entre US$ 7 e US$ 8 por ação. No ano anterior? US$ 8,86. Ou seja, queda de lucro real num ambiente onde os concorrentes estão nadando de braçada.
A doença é crônica, não aguda
Aqui é onde a história fica feia de verdade. As vendas anuais da Target estão essencialmente estagnadas há quatro anos. O tráfego de clientes — tanto nas lojas físicas quanto no site — caiu por três trimestres consecutivos. E não é só que menos gente está entrando: quem entra está gastando menos.
É como aquele restaurante que era point da cidade, mas deixou a qualidade cair, mudou o cardápio sem perguntar pra ninguém, e agora fica lá, com as mesas pela metade, se perguntando o que aconteceu.
E o que aconteceu? Uma combinação de tiro no pé e vento contra:
Os tiros no pé: Clientes entrevistados pela CNBC relataram lojas mais bagunçadas, mercadorias sem graça e — polêmica das boas — a decisão de recuar nas iniciativas de diversidade (DEI) gerou boicote e perda de market share. A própria empresa admitiu que o backlash da decisão sobre DEI prejudicou vendas. Dá pra errar dos dois lados da cerca ao mesmo tempo? A Target conseguiu.
O vento contra: Inflação. Tarifas. O consumidor americano está apertado. Quando o preço da comida, energia e contas básicas sobe, o primeiro item que sai do carrinho é aquela camiseta bonitinha ou o enfeite de casa que você ia comprar por impulso no corredor da Target. E esse é exatamente o coração do negócio da empresa — mercadoria de impulso, moda, decoração, itens sazonais.
Os concorrentes estão passando por cima
Enquanto a Target sangra, Walmart, Costco e T.J. Maxx estão voando. Vendas fortes, atraindo consumidores de todas as faixas de renda, crescendo justamente em categorias como vestuário e casa — as áreas onde a Target historicamente dominava.
É tipo aquele personagem do Breaking Bad que acha que controla o mercado, até descobrir que o concorrente monta um império bem debaixo do nariz dele.
O plano de Fiddelke
O novo CEO, que é veterano de casa e não executivo importado, já sinalizou três prioridades:
- Resgatar a reputação de estilo e design — porque a Target virou sinônimo de "meh"
- Melhorar a experiência do cliente — tradução: parar de entregar lojas bagunçadas
- Usar tecnologia para melhorar performance — o clássico "vamos ser mais eficientes"
Em fevereiro, a empresa anunciou mais investimento em mão de obra nas lojas e cortou 500 vagas em centros de distribuição e escritórios regionais. Isso vem depois de ter demitido 1.800 funcionários corporativos em outubro — o primeiro grande layoff em uma década.
Ou seja: cortando gordura no escritório e colocando gente no chão de loja. Faz sentido na teoria. Mas o quanto vai investir? A empresa não quis dizer. Transparência nota zero.
O que o mercado acha
As ações da Target derreteram quase 32% nos últimos três anos. Subiram 16% no ano, fechando ontem a US$ 113,17, com market cap de US$ 51,24 bilhões. Mas esse repique recente tem cara de "esperança antes do balanço" — o tipo de coisa que evapora rapidinho se os números e o plano estratégico não convencerem.
Então a pergunta que fica é essa: Fiddelke tem skin in the game de verdade ou é mais um executivo corporativo que vai desfilar slides bonitos, falar em "transformação", "customer-centric" e "jornada digital" enquanto o barco afunda devagar?
Hoje à noite a gente descobre se tem plano ou se tem PowerPoint.