Olha, eu ia escrever sobre macroeconomia hoje. Sobre juros, sobre o circo fiscal, sobre alguma coisa que realmente impacta a vida do brasileiro médio que está tentando não ser engolido pela inflação.
Mas aí o Tim Cook — aquele sujeito que parece um pastor evangélico de Vale do Silício, sempre sorrindo com aquela calma zen de quem senta em cima de 3,4 trilhões de dólares em market cap — resolve confirmar que a Apple vai ter uma semana inteira de anúncios de produtos novos.
E o mercado pira.
O Ritual Anual do Consumismo de Luxo
Funciona assim: a Apple anuncia que vai anunciar. A mídia tech enlouquece. Os "analistas" de Wall Street ajustam seus modelos de projeção como se estivessem decifrando os Manuscritos do Mar Morto. E o varejo — aquele investidor pessoa física que compra AAPL porque "é a Apple, né, mano" — entra na euforia como quem entra em fila de Black Friday às 4 da manhã.
É o equivalente financeiro daquela cena do Matrix onde o Morpheus pergunta: "Você quer a pílula azul ou a vermelha?"
A pílula azul: acreditar que cada novo iPhone, cada novo chip M-qualquer-coisa, cada feature de IA generativa vai ser o catalisador que leva a ação a novas máximas históricas.
A pílula vermelha: entender que a Apple é, fundamentalmente, uma empresa madura de hardware que está tentando desesperadamente virar uma empresa de serviços e IA antes que a China coma seu almoço.
O Que Realmente Importa (E Ninguém Fala)
O conteúdo original da notícia? Não tinha quase nada. Literalmente. Você clicava no link e caía numa página de cookies do Google. Isso, por si só, já é uma metáfora perfeita do estado do jornalismo financeiro em 2025: muito hype, zero substância.
Tim Cook confirmou uma "semana de revelações de produtos". Ok. E daí?
Vamos aos fatos que interessam:
1. A Apple precisa de narrativa. A receita de iPhones na China está caindo. A Huawei voltou com tudo. A regulação europeia está apertando o cerco sobre a App Store. A empresa precisa de novos ciclos de produto para justificar o múltiplo de 30x earnings que o mercado paga alegremente.
2. IA é o novo 5G. Lembra quando 5G ia mudar tudo? Pois é. Agora é "Apple Intelligence" que vai mudar tudo. Spoiler: provavelmente não vai. Mas vai vender keynote bonito, vai gerar manchete, e vai mover a ação uns 2-3% no dia do anúncio.
3. O efeito Tim Cook no mercado é real, mas decrescente. Os tempos em que um anúncio da Apple mexia com o S&P 500 inteiro estão ficando pra trás. A concentração nos "Magnificent 7" já mostra sinais de fadiga. Quem está all-in em tech precisa começar a se perguntar se não está confundindo genialidade com inércia de ciclo.
O Skin in the Game
Warren Buffett — aquele velhinho que a Berkshire reduziu a posição em Apple de forma significativa nos últimos trimestres — não fez isso porque ficou gagá. Fez porque entende algo que o investidor médio do Twitter não entende: preço importa.
Você pode amar o produto. Pode achar o ecossistema genial. Pode dormir abraçado com seu MacBook Pro. Nada disso muda o fato de que pagar caro demais por qualquer ativo — por mais extraordinário que seja — é uma receita pra retornos medíocres.
Nassim Taleb diria que a galera que fica histérica com cada anúncio da Apple tem "zero skin in the game" na análise. É cheerleading, não é investimento.
Então, O Que Fazer?
Se você tem Apple em carteira, respira. Uma semana de anúncios não muda tese de investimento. Se muda a sua, sua tese era uma merda desde o início.
Se você está pensando em comprar por causa do hype — porra, para. Volta pro básico. Olha o valuation. Olha o fluxo de caixa. Olha a competição. Olha o que o Buffett está fazendo, não o que o influencer do Instagram está postando.
A Apple é uma empresa extraordinária. Mas empresa extraordinária a preço extraordinário vira investimento ordinário.
Tim Cook vai subir no palco, vai sorrir, vai falar "incredible" umas quinze vezes, e o mercado vai aplaudir.
A pergunta é: você está aplaudindo como investidor ou como fã?
Porque fã paga ingresso. Investidor cobra dividendo.