Tem uma cena clássica no filme O Coringa em que o Arthur Fleck finalmente consegue subir no palco, faz a piada da vida dele, e o público simplesmente não ri.

A Wayfair acabou de viver exatamente isso.


O fato nu e cru

A Wayfair — a maior loja online de móveis e decoração dos EUA — reportou na quinta-feira seus resultados do quarto trimestre e do ano fiscal de 2025. E olha, os números foram bonitos:

  • Receita anual de US$ 12,5 bilhões, crescimento de 5,1% — o primeiro crescimento anual desde 2020. Lembra de 2020? Aquele ano em que todo mundo trancado em casa resolveu comprar sofá novo pela internet?
  • Receita no Q4: US$ 3,34 bilhões vs. US$ 3,30 bi esperados por Wall Street. Bateu.
  • Lucro ajustado por ação: 85 centavos vs. 66 centavos esperados. Bateu de lavada.
  • EBITDA ajustado de US$ 224 milhões, contra expectativa de US$ 200 mi. Bateu de novo.

Três trimestres consecutivos de crescimento de novos clientes. Crescimento saudável em pedidos recorrentes. Tudo isso num mercado de móveis que encolheu no trimestre.

E o que aconteceu com a ação? Caiu quase 10% no pregão.

Porra. Se isso não é o mercado sendo o mercado, eu não sei o que é.


Por que a pancada?

Aqui mora o detalhe que separa quem lê manchete de quem lê balanço.

A Wayfair ainda não dá lucro líquido anual desde 2020. No trimestre, o prejuízo foi de US$ 116 milhões — melhor que os US$ 128 milhões do ano anterior, mas ainda vermelho. O mercado gosta de progresso, mas Wall Street tem a paciência de uma criança de 5 anos numa fila de banco. Os caras querem lucro. Lucro de verdade. Na última linha do DRE.

E tem mais: o ticket médio subiu de US$ 290 pra US$ 301. Parece ótimo, né? Mas quando você olha o contexto — inflação nos bens de consumo para casa, preços subindo no setor inteiro — parte desse aumento é simplesmente inflação repassada, não necessariamente mais valor entregue.

O CEO Niraj Shah veio com aquele discurso que todo CEO adora: "Foi um ano tremendo", "estratégias orgânicas que vão compor por anos". A CFO Kate Gulliver foi mais cirúrgica e disse à CNBC que 2025 foi "um ano pivotal para provar nossa história de ganho de market share e de lucro."

Justo. Mas o mercado não compra narrativa. Compra (ou vende) números.


O contexto macro que ninguém quer olhar

Vamos ser honestos sobre o elefante na sala: o mercado de móveis nos EUA está numa sinuca de bico.

  • Juros altos = menos gente comprando casa = menos gente mobiliando casa nova.
  • Tarifas sobre importações pesando no custo dos fabricantes.
  • Vendas de imóveis residenciais patinando.

Num cenário desses, crescer 5% e ganhar market share é, objetivamente, um feito respeitável. A Wayfair se posicionou como a opção de valor — o consumidor americano que quer trocar o sofá mas não quer pagar preço de Restoration Hardware vai parar lá. E a empresa investiu pesado em experiência: programa de recompensas, selo de qualidade próprio ("Wayfair Verify"), melhorias no site.

É o tipo de trincheira competitiva que não aparece num trimestre, mas aparece em cinco anos.


O que eu realmente penso

A queda de 10% num dia em que a empresa bateu todas as estimativas me lembra uma coisa que o Buffett repete até cansar: no curto prazo, o mercado é uma máquina de votação. No longo prazo, é uma balança.

A Wayfair tem problemas reais — o prejuízo líquido persistente, a dependência de um ciclo imobiliário que não coopera, a concorrência feroz da Amazon e do Temu nesse segmento. Não é uma empresa pra comprar e dormir tranquilo.

Mas se você é o tipo de investidor que vende uma ação no dia em que ela bate expectativas porque "caiu 10%", eu tenho uma pergunta sincera pra você:

Você está investindo ou está jogando roleta com tela bonita?

Porque o Arthur Fleck lá em cima, no palco, pelo menos sabia que era palhaço. E você?