Vou te contar uma cena clássica.
Você conhece aquele momento em Breaking Bad quando Walter White finalmente percebe que não é mais o cara mais esperto da sala? Que o mundo mudou ao redor dele e ele ficou parado, achando que a fórmula velha ainda funcionava?
A Workday está vivendo esse momento agora.
Na terça-feira (24/02), depois do fechamento do mercado americano, a empresa jogou seus números do quarto trimestre fiscal na mesa. EPS ajustado de $2,47 contra $2,32 esperado. Receita de $2,53 bilhões contra $2,52 bilhões esperado. Na superfície, bateu o consenso. Parece bem, né?
Não foi.
As ações afundaram 10% no after-hours. Por quê? Porque o mercado não liga para o passado — ele precifica o futuro. E o futuro que a Workday entregou foi magro.
O problema não foi o que aconteceu. Foi o que vai acontecer.
Para o primeiro trimestre fiscal de 2027, a empresa projetou $2,335 bilhões em receita de assinaturas. O consenso esperava $2,35 bilhões. Diferença de $15 milhões em cima de bilhões. Parece irrelevante, mas no mundo dos múltiplos absurdos de software-as-a-service, essa "pecadilho" de guidance virou um tapa na cara dos investidores.
A margem operacional ajustada projetada foi de 30,5%, abaixo dos 30,9% que Wall Street tinha cheirando.
Para o ano fiscal completo de 2027? Crescimento de receita de assinaturas entre 12% e 13%. Isso é o número que matou o entusiasmo. Uma empresa que antes crescia com cara de foguete agora parece um ônibus subindo a serra.
E tem mais lenha nessa fogueira.
O CEO Carl Eschenbach, que ficou três anos no cargo, saiu em 9 de fevereiro. Quem voltou foi Aneel Bhusri, cofundador da empresa. Troca de CEO em meio a um mercado nervoso é sempre sinal de que algo não estava funcionando nos bastidores — pode ter certeza disso.
Bhusri foi logo na conferência com analistas tentar apagar o incêndio: "Vocês ouviram a narrativa de que HR e ERP vão ser substituídos ou relegados pela IA. Eu pessoalmente não vejo isso acontecendo."
Bonito discurso. Só que o mercado não vota com o coração — vota com o dinheiro. E o dinheiro está saindo.
O CFO Zane Rowe deixou escapar uma frase reveladora: "O foco do Aneel é em crescimento, mais do que bater a margem operacional exclusivamente."
Tradução direta: vamos gastar mais para tentar crescer, mesmo que isso custe margem. Isso é exatamente o tipo de pivô que assusta investidor de crescimento que entrou no papel esperando disciplina operacional.
A IA: vilã ou bode expiatório?
Aqui mora o paradoxo mais interessante da história.
A Workday já tem mais de $400 milhões em receita anualizada vinda de produtos de IA. Adquiriu a Pipedream, startup focada em conectar agentes de IA a serviços externos. Lançou agente de IA para gestão de turnos de trabalho. Está jogando o jogo da inteligência artificial com seriedade.
Mas ao mesmo tempo, o mercado está apostando que modelos de linguagem como o da OpenAI, Anthropic e companhia vão canibalizar exatamente o tipo de software que a Workday vende — RH, ERP, fluxos de trabalho corporativos.
Quem está certo?
Taleb diria: não importa quem está certo no argumento. Importa quem tem skin in the game e quem vai sobreviver à volatilidade enquanto o mercado decide. E os que estavam alavancados em WDAY sem entender o ciclo estão pagando a conta agora.
As ações da Workday acumulam queda de 39% em 2026 — a maior desde o IPO em 2012. Isso não é correção. É um julgamento.
O chefe comercial Rob Enslin ainda jogou mais uma bomba: alguns contratos grandes, especialmente com governo federal e saúde, estão demorando mais para fechar. Ciclo de vendas mais longo, crescimento mais lento, múltiplo mais baixo. É a matemática cruel do mercado.
Não tem narrativa que salve isso no curto prazo.
A questão que fica é mais profunda do que o resultado de um trimestre.
Você ainda sabe distinguir empresa sólida de empresa que surfou num ciclo e está sendo pega pela maré baixa? Porque quando o mercado estava subindo, todo mundo era gênio. Agora que a água baixou, dá pra ver quem estava nadando pelado.
A Workday pode se recuperar. Pode virar o jogo com IA. Pode ser que Bhusri tenha razão e o software corporativo não vá a lugar nenhum.
Mas enquanto isso, 10% em after-hours não mente. O mercado está mandando um recado. A dúvida é se você tem ouvido pra escutar — ou se você também vai ficar lá repetindo que "os fundamentos são sólidos" enquanto o papel derrapa mais 20%.