Quando o presidente de uma gestora de US$ 82 bilhões vai à CNBC dizer que está "se sentindo muito bem" com a qualidade dos empréstimos do fundo... é hora de prestar muita atenção.
Não porque ele esteja necessariamente mentindo. Mas porque gente que está "se sentindo muito bem" normalmente não precisa ir à televisão dizer isso.
O fato nu e cru
A Blackstone revelou em um filing na segunda-feira que permitiu resgates de 7,9% do BCRED — seu fundo flagship de crédito privado e o maior do mundo na categoria — no último trimestre. Em dinheiro, estamos falando de algo em torno de US$ 6,5 bilhões saindo pela porta.
Para honrar esses resgates, a firma precisou, entre outras coisas, colocar US$ 150 milhões do dinheiro dos próprios sócios e investidores internos no fundo. Em linguagem de mercado, isso se chama "demonstrar confiança". Em linguagem de rua, isso se chama tapar buraco com a própria carteira.
As ações da Blackstone caíram até 8,5% na manhã de terça-feira. Os pares do setor de crédito privado foram junto pro ralo.
Jon Gray e o "barulho"
Jon Gray, presidente e COO da Blackstone, foi ao programa do David Faber fazer controle de danos. O roteiro foi previsível:
- "Os 400+ tomadores de empréstimo tiveram crescimento de 10% no EBITDA ano passado"
- "O fundo entrega 9,8% de retorno anualizado desde o início"
- "Temos tido muito barulho"
- "As coisas vão se resolver"
Olha, eu até entendo o Gray. O cara tem que defender o produto. É o trabalho dele. Mas essa história de chamar resgates recordes de "barulho" é a mesma coisa que o capitão do Titanic chamar o iceberg de "cubo de gelo".
O que ele chama de "spin cycle" — ciclo de notícias negativas que retroalimenta nervosismo — é exatamente o que acontece quando há problemas reais por baixo da narrativa.
O elefante na sala: software e IA
Aqui mora o detalhe que o Gray tratou com pinças cirúrgicas na entrevista.
25% do BCRED está emprestado para empresas de software.
Um quarto de um fundo de US$ 82 bilhões. Concentrado em um setor que está sendo sacudido pela inteligência artificial como um prédio em zona de terremoto.
Gray reconheceu — com a delicadeza de quem pisa em ovos — que "existem empresas de software que serão disruptadas" pela IA. Mas se apressou em dizer que os credores são seniores aos acionistas e que "muitas empresas de software serão difíceis de desalojar".
Será mesmo? Pergunte para a Chegg. Pergunte para dezenas de empresas SaaS cujo produto pode ser replicado por um modelo de linguagem a 1% do custo. A senioridade na estrutura de capital é ótima — até o devedor quebrar e não sobrar nada pra ninguém.
O contexto que importa
Esse não é um evento isolado. No mês passado, a Blue Owl precisou encontrar compradores para US$ 1,4 bilhão em empréstimos para ajudar a honrar resgates de 30% de um de seus fundos de crédito. Antes disso, a Tricolor e a First Brands colapsaram — empresas que receberam financiamento tanto de bancos quanto do mercado de crédito privado.
O crédito privado cresceu como um monstro nos últimos anos. Porra, o setor saltou de quase nada para mais de US$ 1,7 trilhão em ativos globais. Cresceu rápido demais, emprestou fácil demais, e agora está descobrindo que o dinheiro barato cobria uma multidão de pecados.
Nassim Taleb tem uma frase que cai como uma luva aqui: "O risco que você não vê é muito maior do que o risco que você vê." O crédito privado, por definição, é opaco. Não tem marcação a mercado diária. Não tem liquidez real. Quando os investidores decidem que querem sair, é como tentar evacuar um estádio lotado por uma porta giratória.
O que isso significa pra você
Se você tem exposição a fundos de crédito privado — direta ou via fundos de fundos — é hora de abrir o capô e olhar o motor. Não estou dizendo que o BCRED vai explodir. Estou dizendo que quando o cara mais importante da maior gestora alternativa do mundo precisa ir à TV explicar que está tudo bem, nem tudo está bem.
A pergunta que fica: se os retornos de 9,8% ao ano são tão bons e os empréstimos tão sólidos, por que diabos os investidores estão sacando quase 8% em um único trimestre?
O barulho, Jon, às vezes é só o alarme de incêndio funcionando.