Enquanto metade dos analistas de Wall Street estava ocupada decretando o apocalipse do consumo americano, uma rede de restaurantes mediterrâneos fast-casual chamada CAVA subiu no ringue e deu um nocaute no consenso.
As ações saltaram 26% em um único dia.
Não foi hype. Não foi meme stock. Foi resultado.
O que aconteceu de verdade
A CAVA reportou os números do quarto trimestre fiscal de 2025 e, pela primeira vez na história da empresa, a receita anual ultrapassou US$ 1 bilhão. Crescimento de mais de 20% contra o ano anterior.
Mas o número que fez o mercado engasgar foi outro: vendas mesmas lojas (same-store sales) subiram 0,5% no trimestre. Parece pouco? O consenso esperava uma queda de 1,1%. Ou seja, o mercado estava posicionado para o pior, e a CAVA entregou o oposto.
Lucro por ação: 4 centavos contra 3 esperados. Receita trimestral: US$ 275 milhões contra US$ 268 milhões esperados. Tudo acima.
Abriram 72 restaurantes novos no ano, totalizando 439 unidades. E o guidance para 2026? Mais 74 a 76 novas lojas, com crescimento de vendas mesmas lojas projetado entre 3% e 5%.
A economia em K e o "ponte" da CAVA
Aqui é onde a coisa fica interessante — e onde a maioria dos sites de notícia financeira vai passar batido, porque exige pensar.
A CFO Tricia Tolivar usou um termo que deveria estar em negrito em qualquer análise séria: economia em formato de K. Pra quem não fala economês, isso significa que uma parte da população está subindo (os mais ricos, os donos de ativos, quem surfou a bolsa) e outra está descendo (classe média e baixa, espremida pela inflação e pelo crédito caro).
E o que a CAVA fez? Criou uma ponte entre esses dois mundos.
A empresa manteve os aumentos de preço em cerca de 1,7% no início de 2025 — uma merreca comparado ao que muitos restaurantes fizeram — e prometeu ser ainda mais comedida em 2026. A tese é simples: ser acessível o bastante pra classe média não sentir culpa, e premium o bastante pra classe alta não sentir vergonha.
Tolivar jogou na mesa um dado que contradiz a narrativa fácil: alguns dos restaurantes com melhor desempenho estão em mercados onde a renda mediana das famílias é mais baixa. Leia de novo. Não são os bairros chiques de Manhattan. É o americano médio escolhendo onde gastar seu dinheiro cada vez mais escasso — e escolhendo a CAVA.
Isso me lembra uma lição do velho Benjamin Graham: o mercado no curto prazo é uma máquina de votação, mas no longo prazo é uma balança. O consumidor americano está votando com o bolso, e o voto está indo pra comida boa, preço justo e experiência decente.
O elefante na sala: tráfego caiu
Nem tudo são flores. O tráfego de clientes caiu 1,4% no trimestre. A empresa compensou isso com mix de produtos e aumento (moderado) de preços. Ou seja, menos gente entrando, mas quem entra gasta mais.
Isso é sustentável? É a pergunta de um bilhão de dólares — literalmente.
No trimestre anterior, a empresa admitiu que jovens estavam recuando. Agora, Tolivar disse que essa tendência se estabilizou. Os dados melhoraram em todas as faixas de renda, idade e região.
E tem novidade no cardápio: salmão. A entrada da CAVA em frutos do mar pode ser o próximo catalisador. Ou pode ser um tiro no pé. Mas pelo menos estão tentando algo com substância, não mais um influencer segurando um bowl no Instagram.
O que isso significa pro investidor
A CAVA é uma empresa que negocia com múltiplos estratosféricos. Isso é fato. E múltiplo alto é uma faca de dois gumes — quando entrega, o mercado celebra com 26% em um dia. Quando decepciona, o tombo é proporcional.
O CEO Brett Schulman falou em "proposta de valor ressoando com o consumidor cada vez mais exigente". Traduzindo do corporativês: o cara está dizendo que quando o dinheiro aperta, a pessoa não para de comer fora — ela escolhe melhor onde comer.
E isso, meus amigos, é skin in the game do consumidor. O tipo de validação que nenhum relatório de analista substitui.
Agora me diz: você prefere confiar no modelo de negócios de uma empresa que cresce 20% ao ano com o consumidor votando com o garfo, ou no "target price" de um analista que almoça no refeitório do banco?
Pois é. Eu também.