Sabe aquela cena do Matrix em que o Morpheus oferece as duas pílulas pro Neo? Pílula azul: você continua acreditando que o Brasil é o "país do futuro". Pílula vermelha: você abre os olhos e vê que, enquanto a gente discute teto de gastos e briga política de quinta categoria, nossos vizinhos de continente estão engolindo o dinheiro que poderia estar vindo pra cá.

Canadá e México acabam de registrar investimento estrangeiro direto recorde em 2025.

Lê de novo. Recorde.

O fato nu e cru

Os dois países que formam a tríade do USMCA (o antigo NAFTA requentado) estão atraindo capital como nunca. E não é por acaso. É estratégia, posicionamento e — pasmem — previsibilidade institucional.

O México virou o queridinho do nearshoring. Empresas que antes despejavam bilhões na China estão olhando pro lado e pensando: "Porra, por que eu vou mandar minha fábrica pra 12 fusos horários de distância se tem um país com mão de obra competitiva, acordo comercial com os EUA e frete de caminhão?"

A Tesla sabe disso. A BMW sabe. A CATL sabe. Até a Samsung trocou peças da cadeia chinesa pelo México.

O Canadá, por sua vez, está sugando investimento em tecnologia, mineração de minerais críticos (lítio, cobalto, terras raras) e energia limpa. O governo canadense, com todos os seus defeitos — e olha que são muitos — pelo menos entendeu que capital estrangeiro precisa de segurança jurídica e regras claras. Conceitos que no Brasil parecem ficção científica.

Por que isso importa pra você, investidor brasileiro

Se você acha que isso é notícia de gringo e não te afeta, deixa eu te sacudir um pouco.

Cada dólar que vai pro México ou pro Canadá é um dólar que não vem pro Brasil. Investimento estrangeiro direto é jogo de soma quase zero no curto prazo. O capital global tem um orçamento, e ele escolhe onde alocar. Quando o México oferece acesso direto ao maior mercado consumidor do mundo (EUA), infraestrutura razoável e custo competitivo, a gente fica com as migalhas.

E migalha é o que temos recebido. O IED no Brasil até cresceu em 2024, mas nada que se compare ao fluxo que nossos vizinhos estão capturando. O problema não é que somos ruins. É que os outros estão jogando melhor.

É tipo aquela frase do Buffett invertida: quando a maré sobe, todos os barcos sobem — mas alguns barcos têm motor e outros estão amarrados no porto com burocracia, insegurança jurídica e carga tributária de país nórdico sem serviço público de país nórdico.

O elefante na sala: nearshoring vs. friendshoring

Tem uma distinção importante que o mercado mainstream ignora porque dá trabalho explicar.

Nearshoring é trazer a produção pra perto do mercado consumidor. O México ganha nisso por geografia pura.

Friendshoring é alocar produção em países "amigos" geopoliticamente. Canadá e México ganham nisso porque estão alinhados (ou pelo menos não desalinhados) com Washington.

E o Brasil? O Brasil fica naquela posição clássica de quem tenta agradar todo mundo e não agrada ninguém. Abraça a China num dia, faz jura de amor pros EUA no outro, e no final o capital estrangeiro olha essa dança e pensa: "Vou colocar meu dinheiro onde as regras não mudam a cada eleição."

Nassim Taleb diria que o Brasil tem fragilidade institucional. Não é antifrágil. Não é nem robusto. É frágil. E capital de longo prazo foge de fragilidade como o diabo foge da cruz.

O que observar daqui pra frente

Fique de olho em três coisas:

  1. Fluxo de IED comparativo — se a distância entre Brasil e México continuar abrindo, o real vai sentir no médio prazo.
  2. Decisões de grandes multinacionais sobre novas fábricas e centros de distribuição nas Américas. Cada anúncio no México é um tapa na cara da política industrial brasileira.
  3. A evolução do nearshoring chinês — se a China começar a montar fábricas no México pra driblar tarifas americanas (já está fazendo isso), o jogo muda de patamar.

Enquanto o Brasil debate se vai ou não taxar dividendo, se o Banco Central é independente de verdade ou de mentirinha, e se o arcabouço fiscal vai ser cumprido ou vai ser mais um "jeitinho", México e Canadá estão simplesmente fazendo a lição de casa e passando o chapéu pro capital global.

A pergunta que fica: até quando você vai montar sua carteira como se o Brasil fosse a única opção no cardápio?