Tem um fenômeno curioso no mercado financeiro que eu chamo de "Síndrome do Jensen Huang": você entrega o melhor trimestre da história da sua empresa, bate todas as estimativas, e mesmo assim o mercado te dá um tapa na cara. Foi exatamente o que aconteceu com a Nvidia no mês passado.
Agora, olha a ironia da coisa.
Hock Tan, o CEO da Broadcom — um cara que parece ter saído de um filme do Michael Mann, frio, calculista, sem firula — foi lá na call de resultados e fez o que o Jensen não conseguiu: convenceu o mercado.
A ação subiu 4% na quinta-feira. E não foi por causa de um PowerPoint bonito.
O que o cara falou que fez Wall Street salivar
Tan disse aos analistas que espera uma receita de chips de AI em 2027 "significativamente acima de US$ 100 bilhões". Leia de novo. Significativamente. Acima. De cem bilhões de dólares.
Pra quem não tem noção do que isso significa: a Broadcom inteira faturou cerca de US$ 51 bilhões no último ano fiscal. O cara está basicamente dizendo que só a divisão de AI vai ser maior que a empresa toda é hoje. E não é daqui a dez anos — é em 2027.
O JPMorgan pegou a calculadora e estimou que a empresa pode atingir entre US$ 12 a 15 bilhões de receita por gigawatt de capacidade. Levantaram suas estimativas "conservadoramente" para US$ 120 bilhões ou mais em receita de AI.
Conservadoramente. Cento e vinte bilhões. Tá.
Por que Tan convenceu e Jensen não
Aqui mora a lição mais interessante dessa história toda, e que nenhum analista de terno vai te contar.
Não basta entregar número. Você precisa matar a dúvida que está na cabeça do mercado.
A dúvida com a Nvidia era: "Até quando isso sustenta?" Jensen não matou essa bala. Tan matou três de uma vez:
Primeira: disse que já tem memória de alta largura de banda e wafers de ponta garantidos até 2028. Numa época em que todo mundo está brigando por HBM como cachorro por osso, o cara já travou o supply. Isso é gestão, porra.
Segunda: afirmou que as margens do negócio de AI vão ser consistentes com o resto do negócio de semicondutores da Broadcom. Ou seja, não é aquela história de "crescemos receita mas a margem foi pro saco". Os yields estão lá, os custos estão controlados.
Terceira — e essa é a mais elegante: usou a própria Nvidia como escudo. Tan argumentou que os hyperscalers que estão fazendo seus próprios chips customizados não podem se dar ao luxo de ter "um chip que é apenas bom o suficiente". Eles precisam do melhor, porque estão competindo entre si e contra a Nvidia, "que não está baixando a guarda de jeito nenhum".
É como no xadrez: ele transformou o maior concorrente em razão para o cliente continuar comprando dele. Genial.
O efeito cascata — e quem se ferrou
Resultado bom de gigante sempre respinga. A Credo subiu 10% e a Amphenol 4%, ambas fabricantes de conectividade em cobre — que é o que a Broadcom usa pra conectar servidores de AI. A aposta do mercado é que o cobre está ganhando a guerra contra a tecnologia óptica nesse segmento.
Do outro lado do ringue, a Lumentum e a Coherent — que apostam em tecnologia óptica — caíram mais de 4% cada. O mercado não perdoa: escolheu um lado e puniu o outro no mesmo dia.
O que isso significa pro investidor que não é otário
Olha, eu não sou fã de comprar ação depois de uma alta de 4% no dia do earnings. Quem faz isso geralmente é a última sardinha entrando no cardume.
Mas o que vale prestar atenção aqui é o framework mental do Hock Tan. O cara não é um showman. Não fica postando selfie com chip no LinkedIn. Ele faz aquisições cirúrgicas (comprou a VMware, lembra?), trava supply chain anos à frente, e fala com analista como adulto fala com adulto.
No mundo dos CEOs de tech que parecem influencers digitais, Tan é uma anomalia bem-vinda. É o cara que tem skin in the game de verdade.
A Goldman Sachs disse que a Broadcom entrega "o menor custo de inferência para seus clientes hyperscalers" e que está reduzindo custos no mesmo ritmo da líder Nvidia. Se isso se confirmar, US$ 100 bilhões pode ser até conservador.
Agora me diz: você vai continuar achando que AI é bolha enquanto os caras estão travando capacidade de memória até 2028, ou vai pelo menos considerar que talvez — só talvez — dessa vez o fundamento sustenta a narrativa?