Existe uma velha regra no mundo dos negócios que nenhum MBA te ensina direito:
Empresa não baixa preço por bondade. Empresa baixa preço porque está perdendo.
Guarda essa frase. Ela explica tudo o que aconteceu na terça-feira passada quando a Novo Nordisk — a farmacêutica dinamarquesa que virou queridinha de Wall Street por causa do Ozempic e do Wegovy — anunciou que vai cortar em até 50% os preços de tabela dos seus medicamentos GLP-1 nos Estados Unidos a partir de janeiro de 2027.
Cinquenta por cento. Metade. De remédios que faturam bilhões.
Isso não é filantropia. Isso é um sinal de fumaca no horizonte.
O Circo Bonito da Narrativa
A assessoria de imprensa da Novo caprichou no roteiro. O executivo de operações nos EUA, Jamey Millar, apareceu na CNBC falando em "acesso ao paciente", em "redução do peso financeiro" para quem tem plano de saúde com franquia alta (high-deductible plan, pra quem curte o economês).
Bonito. Muito bonito.
Mas vamos traduzir isso para o português raiz: a Eli Lilly — rival direta da Novo no mercado bilionário de GLP-1 — está comendo o almoço deles. Com garfo, faca e sobremesa.
A Lilly entrou mais cedo no mercado direto ao consumidor, tem medicamentos considerados mais eficazes na briga contra a obesidade, e já domina a maior fatia desse mercado que vale centenas de bilhões de dólares. A Novo ficou pra trás. E quando você fica pra trás, você tem duas opções: inova ou baixa o preço.
Eles escolheram baixar o preço.
O Que É GLP-1, Afinal?
Para quem ainda não entrou nessa conversa: GLP-1 é uma classe de medicamentos que imita um hormônio natural do seu intestino, regulando insulina e saciedade. O resultado? Perda de peso significativa, controle do diabetes tipo 2, e uma fila de espera de pacientes que não acaba mais.
Ozempic (semaglutida injetável para diabetes), Wegovy (a mesma substância, dose maior, indicação para obesidade) e Rybelsus (versão oral) são os cavalos de batalha da Novo nessa corrida.
O preço atual? Algo em torno de $1.350 por mês para o Wegovy. A partir de 2027, vai para $675.
Mas espera — o Medicare (plano de saúde federal americano para idosos) já negociou com o governo Trump um preço de $274 por mês para esses mesmos remédios, por causa do Inflation Reduction Act. Ou seja, a Novo já estava sendo forçada a engolir desconto no setor público. Agora está tentando mostrar boa vontade também no setor privado antes que o mercado force a mão dela de uma forma ainda mais feia.
Isso é chess, não checkers.
O Jogo Real Por Trás do Anúncio
Nassim Taleb tem um conceito que cabe como uma luva aqui: skin in the game. Quem realmente tem algo a perder age diferente de quem só fala.
A Novo tem muito a perder. Suas ações acumulam quedas relevantes nos últimos meses. O pipeline de novos produtos não é tão robusto quanto o da Lilly. E a concorrência está chegando de todos os lados — desde genéricos de semaglutida até novas moléculas que prometem superar o que existe hoje.
Baixar o preço de tabela é uma tentativa de segurar os pacientes com plano de saúde privado que ainda estavam pagando valor cheio (especialmente quem tem franquia alta e pagava praticamente o preço de tabela do bolso até atingir o teto do plano). Se conseguirem aumentar adesão, talvez compensem em volume o que perderam em margem.
É a estratégia clássica de quem está em segundo lugar. Funciona às vezes. Não funciona quando o produto do líder é objetivamente melhor.
O Que o Investidor Brasileiro Precisa Entender
A maioria dos brasileiros não compra ação de Novo Nordisk diretamente. Mas muita gente tem exposição indireta via ETFs globais, fundos multimercado com posição em saúde, ou BDRs.
E o recado é simples: o mercado de GLP-1 é real, é gigante, mas a guerra de preços já começou. Isso corrói margem. Margem corroída significa resultado financeiro mais fraco. Resultado mais fraco significa revisão de múltiplos. Revisão de múltiplos significa que quem comprou caro vai sofrer.
Não é fim do mundo. É o mercado funcionando. Concorrência destrói rent. Sempre destruiu. Sempre vai destruir.
Buffett construiu sua forteira comprando negócios com vantagem competitiva duradoura — o que ele chama de moat, o fosso medieval que protege o castelo. A pergunta que você tem que se fazer sobre Novo Nordisk é: o fosso deles ainda é largo o suficiente?
Ou a Lilly já atravessou nadando, enquanto a gente ainda estava aplaudindo o Ozempic no Instagram?