Existe uma cena clássica em Breaking Bad onde toda a operação de Walter White depende de uma única variável fora do seu controle. Um movimento errado, e tudo desmorona. O cara construiu um império, mas o alicerce era de areia.
Bem-vindo ao mercado de ações americano em 2025.
A Nvidia vai divulgar seus resultados trimestrais, e Wall Street está em posição fetal esperando. Analistas de terno, gestores de fundo com MBA de Ivy League, e o seu cunhado que "entende de bolsa" estão todos com o dedo no gatilho. Não é exagero dizer que os resultados de uma única empresa de semicondutores têm o poder de mover índices inteiros. O S&P 500. O Nasdaq. O humor do planeta financeiro por semanas.
Para quem não sabe o que a Nvidia faz: ela fabrica as GPUs — as "placas de vídeo turbinadas" — que rodam os modelos de inteligência artificial. ChatGPT, Gemini, Claude, os data centers gigantes da Microsoft, Amazon e Google. Todos dependem do silício da Nvidia. A empresa virou a usina elétrica da corrida do ouro da IA.
E aí está o problema.
Quando uma empresa vira religião
O mercado parou de precificar a Nvidia como negócio. Passou a precificá-la como fé.
Taleb diria que o sistema construiu uma fragilidade enorme aqui. Quando você concentra tanto otimismo, tanto capital, tanta narrativa em um único ponto de falha — você não está investindo. Você está apostando. E apostando com alavancagem emocional que nenhuma planilha consegue medir.
A Nvidia negocia a múltiplos que fariam Graham ter um infarto. Price-to-earnings acima de 30 vezes os lucros projetados num setor que pode ser disruptado amanhã por um competidor chinês, por regulação do governo americano, ou simplesmente porque as big techs decidiram desenvolver seus próprios chips — o que, aliás, já estão fazendo.
Google tem o TPU. Amazon tem o Trainium. Apple tem o seu silício próprio. A dependência da Nvidia não é eterna. É conveniente. Por enquanto.
O problema do "too big to ignore"
Quando uma ação representa uma fatia tão desproporcional dos índices, os fundos de índice são obrigados a comprar. Não porque acreditam. Porque o mandato exige. Isso cria uma pressão artificial de compra que empurra o preço pra cima, o que aumenta o peso no índice, o que força mais compra. Um ciclo de retroalimentação que funciona lindamente na subida.
E na descida?
Kovner, um dos maiores traders da história, tinha uma regra simples: nunca confundir movimento de preço com valor. Preço é o que o mercado está gritando agora. Valor é o que o negócio realmente vale ao longo do tempo. Quando esses dois números estão muito distantes, alguém vai pagar a conta.
A questão não é se. É quem vai estar segurando a bolsa quando a música parar.
O que os resultados vão revelar — e o que não vão
Se a Nvidia bater as expectativas — e as expectativas estão absurdamente altas — o mercado vai comemorar como se tivesse descoberto a cura do câncer. As manchetes vão gritar sobre "IA dominando o mundo". Os gurus do Instagram vão aparecer com print de carteira verde.
Se decepcionar minimamente — mesmo que os lucros sejam monstruosos em termos absolutos — prepare-se para o soluço. Bilhões evaporando em minutos. Liquidação em cascata. E os mesmos analistas que estavam "muito otimistas" vão aparecer na TV explicando por que "sempre souberam" que tinha risco.
Esse é o circo. Roteiro previsível. Elenco recorrente. Plateia pagante.
A pergunta que ninguém quer responder
Quanto do seu portfólio está, direta ou indiretamente, dependendo do humor de Jensen Huang numa call de resultados?
Se você tem ETF de Nasdaq, tem Nvidia. Se tem S&P 500, tem Nvidia. Se tem qualquer fundo que "investe em tecnologia e futuro digital", tem Nvidia. Você pode nem saber, mas está no barco.
Isso não significa que a empresa é ruim. A Nvidia é um negócio extraordinário. Huang construiu algo genuinamente impressionante. Mas negócio extraordinário e preço extraordinariamente esticado são coisas diferentes. E o mercado, nesse momento de euforia coletiva com IA, está tratando os dois como sinônimos.
Buffett passou décadas repetindo que o risco maior não está no ativo ruim — está no ativo bom comprado no preço errado.
O circo vai continuar. As palhaçadas vão continuar. Mas você precisa decidir se está na plateia ou se é o palhaço.
E se você não sabe a resposta, provavelmente é o segundo.