Lembra daquela frase do velho ditado da corrida do ouro? "Quem ficou rico de verdade não foi quem cavou ouro — foi quem vendeu as picaretas e as pás."

Pois é. Enquanto o mercado inteiro briga pra saber se Nvidia vai continuar subindo, se o custom chip do Google vai comer market share, ou se a bolha de IA vai estourar semana que vem, tem uma empresa que acabou de nascer como companhia independente e que, honestamente, a maioria dos investidores brasileiros nunca ouviu falar.

O nome é Qnity Electronics. E ela acabou de mostrar que veio pra jogo grande.

Os números que o mercado não esperava

Na quinta-feira, a Qnity soltou seu primeiro balanço como empresa pública — resultado do spin-off da DuPont no outono passado — e os números vieram bonitos:

  • Receita no Q4: US$ 1,19 bilhão (+8% ano a ano), acima dos US$ 1,16 bilhão esperados.
  • Lucro por ação: 82 centavos, uma queda de 5,7% na comparação anual, mas muito acima dos 64 centavos que o consenso projetava.

Traduzindo do economês: a empresa faturou mais do que esperavam e lucrou bem mais do que esperavam. Num mundo onde expectativa é tudo, bater o consenso por essa margem é um tapa na cara dos céticos.

O que essa empresa faz, afinal?

Aqui que fica interessante — e aqui que a maioria para de prestar atenção, porque não é sexy como falar de GPU e data center.

A Qnity fornece químicos e materiais essenciais para a fabricação de semicondutores. Estamos falando de photoresists — os compostos químicos que permitem "imprimir" os circuitos nos wafers de silício — e de soluções de gerenciamento térmico, que impedem seus chips turbinados de virarem torradeiras.

Os clientes? Ah, ninguém importante. Só TSMC, Samsung e SK Hynix. Os três maiores fabricantes de chips do planeta.

É como ser o fornecedor de cimento numa época em que todo mundo está construindo arranha-céu. Pode até não aparecer na foto da inauguração, mas sem você o prédio não sai do chão.

Por que isso importa para o investidor esperto

O pulo do gato da Qnity é a agnóstica do vencedor. Não importa se quem ganha a guerra dos chips é Nvidia com seus GPUs, Google com os TPUs, ou se a escassez de memória continua sangrando o mercado. A Qnity vende pra todo mundo.

E tem mais: conforme os processos de fabricação ficam mais avançados — e a demanda por IA garante que isso não vai parar — a quantidade de material da Qnity necessária por chip aumenta. Ou seja, o vento sopra a favor em duas direções: mais chips sendo fabricados e mais material por chip.

Isso é o que o Buffett chamaria de moat natural. Não é fácil substituir fornecedores de químicos especializados quando seus clientes são fábricas que operam com precisão de nanômetros.

A cereja (e o custo) do bolo

A gestão da Qnity anunciou um plano de transformação plurianual que pretende simplificar operações, aumentar produtividade e cortar custos. A meta? US$ 100 milhões a mais no EBITDA anualizado até o fim de 2028.

Mas como não existe almoço grátis — e qualquer um que te diz o contrário está vendendo curso online — a brincadeira vai custar cerca de US$ 140 milhões em despesas não-recorrentes nos próximos dois a três anos.

O que gostei de verdade: falaram em automação, aplicações internas de IA e fortalecimento do modelo "local-for-local" — ou seja, produzir perto dos clientes. Num mundo onde guerra comercial virou o novo normal, isso é inteligência estratégica, não buzzword de apresentação de PowerPoint.

O elefante na sala

A ação devolveu boa parte da alta matinal na quinta-feira. Antes de entrar em pânico: o sell-off foi generalizado no complexo de data center e hardware de IA. Não foi nada específico da Qnity.

O guidance para o ano inteiro veio acima das estimativas, o que numa empresa recém-nascida no mercado público é um sinal forte. O preço-alvo subiu de US$ 110 para US$ 140.

Mas — e aqui é onde a disciplina importa mais que a empolgação — a equipe de análise do CNBC Investing Club está segurando a recomendação de compra por enquanto, esperando ver se a rotação contra winners de IA neste ano é passageira ou mais duradoura.

E honestamente? Essa prudência faz sentido. Porque no mercado, a pior coisa que existe é estar certo no ativo e errado no timing.

A pergunta que fica

Todo mundo quer comprar o próximo foguete. Mas quantos estão dispostos a comprar o combustível do foguete antes da decolagem?

A Qnity não vai te dar o glamour de dizer no churrasco que você tem Nvidia. Mas pode te dar algo que glamour não paga: retorno consistente apoiado em demanda estrutural.

A questão é se você tem estômago pra investir numa empresa que o Brasil inteiro ainda não pronuncia direito — ou se vai esperar ela aparecer na capa da Exame pra comprar no topo.

Porra, você já sabe a resposta certa. A dúvida é se vai ter coragem de agir.