"O mundo está mudando rapidamente, e a Rheinmetall está bem preparada."
Essa frase do CEO Armin Papperger soa quase poética, né? Tipo o Heisenberg dizendo "I am the one who knocks" — só que em vez de metanfetamina, o produto aqui são tanques, munições e motores de foguetes. E o cliente? Bom, o cliente é basicamente qualquer governo ocidental que acordou do cochilo pacifista e agora está desesperado pra se armar até os dentes.
Os números: bonitos, mas não bonitos o suficiente
A Rheinmetall reportou receita de 9,94 bilhões de euros no ano fiscal de 2025 — um crescimento de 29% sobre o ano anterior. Lucro operacional (EBIT) de 1,68 bilhão de euros. Parece coisa de outro mundo, certo?
Pois é. Mas o mercado queria mais.
As estimativas da LSEG apontavam para 10,53 bilhões em receita e 1,75 bilhão em EBIT. A Rheinmetall ficou abaixo nos dois. As ações caíram 5,2% logo cedo na quarta-feira.
Aqui mora a ironia deliciosa do capitalismo de guerra: a empresa cresceu quase 30% num único ano, está sentada em cima de um backlog recorde de 63,8 bilhões de euros (alta de 36%), e mesmo assim o mercado deu um tapa na cara dela. Expectativas são uma filha da puta.
O guidance pra 2026: "Hold my Panzerfaust"
Agora vem a parte suculenta.
A Rheinmetall projeta vendas entre 14 e 14,5 bilhões de euros em 2026. Isso representa um crescimento de 40% a 45% sobre 2025. Margem operacional esperada de 19%, contra 18,5% no ano anterior.
E talvez o número mais obsceno: o backlog deve mais que dobrar, chegando a 135 bilhões de euros.
Cento e trinta e cinco bilhões.
Pra contextualizar: a capitalização de mercado da empresa já a coloca como a sétima maior da Alemanha. E os analistas da Jefferies chamaram esse guidance de "realista, mas conservador." Traduzindo do economês: "achamos que pode ser até melhor que isso, mas ninguém quer parecer maluco."
O elefante na sala: a guerra no Irã
Aqui o bicho pega de verdade.
A Rheinmetall declarou, sem meias palavras, que está em "posição privilegiada para ajudar os EUA a repor seus estoques de mísseis" usados na guerra no Irã. Especificamente, fornecendo motores de foguete de propelente sólido — o coração de qualquer míssil moderno.
Na apresentação aos investidores, a empresa cravou: "Maiores gastos com reposição de mísseis e defesa aérea são inevitáveis."
Inevitáveis.
Não é uma previsão. É um fato declarado por quem fabrica as balas. É como o dono da padaria te dizendo que amanhã vai ter fila — ele já sabe quantos pães estão no forno.
Com as guerras na Ucrânia e no Irã rodando simultaneamente, os governos da OTAN — que recentemente concordaram com uma meta de gastos militares de 5% do PIB — estão basicamente escrevendo cheques em branco para a indústria de defesa.
O que realmente importa aqui
Olha, eu sei que existe um desconforto moral em analisar fabricantes de armas como investimento. E deveria existir. A gente não tá falando de empresa de software ou de café gourmet. Estamos falando de uma indústria que lucra literalmente com a destruição.
Mas se você é investidor — e não pregador — precisa olhar pros fatos com frieza de cirurgião.
Fato 1: As ações da Rheinmetall subiram mais de 540% nos últimos anos.
Fato 2: O backlog está explodindo numa velocidade que pouquíssimas empresas no planeta conseguem replicar.
Fato 3: A demanda não é cíclica no sentido tradicional. Enquanto houver guerra — e porra, olha o mundo — há demanda.
A analista da Morningstar, Loredana Muharremi, apontou que programas atrasados devem se converter em contratos à medida que orçamentos de defesa europeus são aprovados, especialmente na Alemanha. Ou seja, o que a Rheinmetall não entregou em 2025, vai entregar com juros em 2026.
Os analistas do Barclays já tinham dito em fevereiro que a queda anterior das ações após o pre-guidance foi uma "reação exagerada," e que "do ponto de vista estrutural, nada mudou: o crescimento do backlog em 2026 será material."
A pergunta que fica
A Rheinmetall perdeu as estimativas e caiu 5%. Mas projeta crescer 45% e dobrar o backlog.
Você vai se deixar assustar pelo ruído de curto prazo — ou vai prestar atenção no arsenal que essa empresa está construindo?
Porque o Papperger pode até soar como vendedor de carro usado quando diz que "o mundo está mudando." Mas o backlog de 135 bilhões de euros não mente. Os números nunca mentem. As narrativas, sim — e como mentem.