Vou te contar uma história que parece roteiro de filme do Adam McKay — aquele cara que dirigiu A Grande Aposta.

Imagina uma empresa que não produz nada. Não tem receita operacional relevante. Não tem lucro. Não tem nem permissão regulatória definitiva pra começar a operar. E aí aparece um bando de gente na internet perguntando: "Será que se eu comprar essa ação hoje, os dividendos futuros vão me aposentar?"

Porra. Isso é o equivalente financeiro de comprar um terreno em Marte e já planejar a churrasqueira.

O que é a The Metals Company (TMC)?

Pra quem não conhece, a TMC é uma empresa que quer fazer mineração no fundo do oceano — especificamente, coletar nódulos polimetálicos do leito do Pacífico, ricos em níquel, cobalto, manganês e cobre. Metais essenciais pra baterias de veículos elétricos e transição energética.

A tese é sedutora, não vou mentir. O mundo precisa desses metais. A mineração terrestre é destrutiva, cara e politicamente complicada. E lá no fundo do mar tem trilhões de dólares em minerais esperando alguém com tecnologia e coragem pra ir buscar.

O problema? Quase tudo nessa tese ainda é promessa.

A empresa opera sob licenças exploratórias da ISA (International Seabed Authority), o órgão da ONU que regula mineração em águas internacionais. E a ISA ainda não finalizou o código de mineração que permitiria a exploração comercial de verdade. Sem esse marco regulatório, a TMC é basicamente uma empresa de PowerPoint muito bonito.

A fantasia dos dividendos

Agora vem a parte que me faz querer virar a mesa.

A narrativa que circula em fóruns e canais de "investimento" é mais ou menos assim: "Se a TMC conseguir as licenças, começar a minerar e gerar caixa, ela poderia pagar dividendos enormes no futuro. Então comprar hoje a preço de banana seria como comprar ações da Saudi Aramco antes do petróleo virar ouro negro."

Percebe quantos "se" tem nessa frase?

Se conseguir licença. Se a tecnologia funcionar em escala. Se o custo de extração for viável. Se não houver bloqueio ambiental. Se o preço dos metais se mantiver alto. Se a empresa não diluir os acionistas até a ação virar pó.

Isso não é investimento. Isso é loteria com verniz de análise fundamentalista.

Benjamin Graham — o pai do value investing, o cara que ensinou Warren Buffett — tinha uma frase que deveria estar tatuada na testa de todo especulador disfarçado de investidor: "Uma operação de investimento é aquela que, após análise minuciosa, promete segurança do principal e retorno adequado. Operações que não atendem esses requisitos são especulativas."

A TMC não promete segurança de nada. Nem do principal.

Os números que ninguém quer ver

A empresa queima caixa como se fosse lenha em fogueira de São João. Não tem receita significativa. Depende de captações constantes no mercado — o que significa diluição pros acionistas existentes. Cada vez que emitem novas ações pra se financiar, seu pedaço do bolo fica menor.

E dividendos? Empresas pagam dividendos com lucro. Com fluxo de caixa livre. A TMC não tem nenhum dos dois. Falar em dividendos da TMC hoje é como discutir a decoração da cobertura de um prédio que ainda nem tem fundação.

Não estou dizendo que a tese é lixo

Calma. Antes que algum fã da TMC venha me xingar: a mineração de fundo oceânico pode ser uma indústria transformadora. Os metais são estratégicos. A empresa pode ser pioneira.

Mas "pode" não paga conta. Nassim Taleb diria que esse é um caso clássico de assimetria narrativa: a história é tão boa que as pessoas param de fazer conta. E quando você para de fazer conta no mercado financeiro, o mercado faz a conta por você — e geralmente cobra caro.

Se você quer especular com dinheiro que pode perder — dinheiro de verdade que você aceita ver ir a zero — beleza. Coloca 1-2% do portfólio e trata como o que é: uma aposta assimétrica de alto risco.

Mas se você está comprando TMC achando que encontrou a galinha dos ovos de ouro dos dividendos futuros, me responde uma coisa:

Desde quando apostar no fundo do oceano ficou mais seguro do que manter os pés no chão?