Sabe aquela cena do Batman Begins em que o Wayne volta do buraco cheio de morcegos, todo arrebentado, e o Alfred pergunta "por que caímos, senhor?" — "para aprender a nos levantar"?

Pois é. Wall Street caiu, apanhou, e na semana passada resolveu levantar. Mas não se iludam: o chão continua cheio de vidro quebrado.

O tapa da Suprema Corte em Trump

Sexta-feira. Suprema Corte americana. 6 a 3. Derrubar a maior parte da agenda tarifária do Trump.

Leia de novo: seis a três. Não foi apertado. Foi uma surra jurídica.

A maioria escreveu, basicamente: "Nenhum presidente na história usou esse estatuto para impor tarifas, muito menos tarifas dessa magnitude e escopo." E completaram com a frase que deveria virar pôster: "He cannot." — "Ele não pode."

O S&P 500 subiu 0,7% só na sexta. Mas antes de você sair comprando tudo que tem ticker, presta atenção no detalhe que o mercado mainstream adora esconder: Trump não recuou. Horas depois da decisão, ameaçou tarifas globais de 10%. No sábado, postou mais sobre tarifas no Truth Social. O cara é o Coringa — você acha que encurralou ele, e ele puxa outra carta da manga.

A Nike é o exemplo perfeito. A empresa já tinha projetado US$ 1,5 bilhão em impacto negativo de tarifas neste ano fiscal. Subiu com a notícia da Suprema Corte e... fechou em queda de 0,3%. O mercado rapidamente entendeu que Trump vai buscar rotas alternativas para enfiar essas tarifas goela abaixo. Costco, Procter & Gamble, TJX, Amazon — todos na mira.

Terça-feira tem discurso do Estado da União. Prepara a pipoca. E o hedge.

Big Tech acordou — e veio com fome

Se você vendeu big tech no pânico das últimas semanas, meus pêsames. A turma voltou com força.

Meta anunciou na terça que vai usar milhões de chips da Nvidia nos seus data centers. Milhões. Não milhares. A narrativa de demanda insaciável por IA não morreu — ela tirou um cochilo e acordou irritada.

Meta subiu 2,5% na semana. Nvidia, 3,8%.

Mas o destaque mesmo foi a Amazon: +5,6%. O motivo? Um filing regulatório mostrou que Bill Ackman, da Pershing Square, aumentou significativamente a posição no quarto trimestre. Quando um cara com o histórico do Ackman põe fichas na mesa, o mercado escuta. Skin in the game, como diria o Taleb.

Alphabet andava apanhando pós-earnings, arrastada num downtrend chato. Mas o pessoal do Investing Club aproveitou a queda pra comprar mais — argumentando que o pullback era injustificado. Sessão seguinte? Rali. Fechou a semana +3%. Às vezes, a jogada mais simples é a mais difícil: comprar quando dói.

E tem a Corning, que não é megacap, mas surfa a onda de IA por causa dos cabos de fibra óptica para data centers. Subiu 4,5% na semana. Infraestrutura de IA não é só chip bonito — é cabo, é energia, é tijolo digital. Quem entende isso está alguns passos à frente.

O canário na mina de crédito privado

Agora a parte que ninguém quer discutir nas rodinhas do happy hour da Faria Lima (ou de Wall Street).

Blue Owl Capital. Nunca ouviu falar? Pois deveria. A gestora restringiu permanentemente saques do seu fundo de crédito privado para investidores de varejo. Permanentemente. A ação caiu quase 6% na quinta.

Alguns em Wall Street já chamam a Blue Owl de "canário na mina de carvão" — aquele sinal de que algo fedido está acontecendo embaixo da superfície do mercado de crédito privado, que atraiu bilhões nos últimos anos.

Porra, prestem atenção nisso. O crédito privado virou a queridinha dos alocadores porque prometia retornos superiores com "baixa volatilidade". Sabe o que mais prometia baixa volatilidade? Subprime em 2006. CDOs sintéticos em 2007. A volatilidade não some — ela se esconde até o momento em que não se esconde mais.

Os bancões do portfólio do Investing Club — Wells Fargo (+2%), Goldman Sachs (+1,9%), Capital One (+0,5%) — seguraram firme. Mas se a crise de crédito privado escalar, vai respingar em todo mundo. Não existe quarentena no sistema financeiro.

E agora?

O Nasdaq quebrou cinco semanas consecutivas de queda. O S&P interrompeu uma sequência de duas semanas negativas. Bonito no papel.

Mas a semana teve só quatro pregões (feriado) e as três forças que a moveram — decisão judicial, hype de IA e stress de crédito — continuam todas em aberto.

Trump não vai aceitar a derrota na Suprema Corte calado. A demanda por IA pode ser real, mas os valuations já precificam perfeição. E o crédito privado... bem, quando um fundo tranca a porta, geralmente não é porque está tudo bem lá dentro.

A pergunta que fica: você está posicionado para o que vem, ou está só torcendo pro mercado continuar subindo?

Porque o mercado não liga pra sua torcida.