Tem uma cena clássica em O Poderoso Chefão onde Michael Corleone diz que vai matar Sollozzo e o capitão McCluskey. Todo mundo ri. "Ele não é brincadeira", alguém avisa. Ninguém acreditou — até os dois estarem mortos no restaurante.
Trump acaba de sentar na mesa do restaurante.
A treta: stablecoins com rendimento
Vamos ao fato nu e cru. Na terça-feira à noite, Donald Trump foi às redes sociais e escolheu um lado na maior briga regulatória dos Estados Unidos neste momento: crypto versus bancos tradicionais. E ele escolheu o crypto.
O ponto de discórdia é simples de entender: empresas como a Coinbase querem pagar rendimento sobre stablecoins — basicamente, você deixa seu dinheiro parado lá e ele rende, como uma poupança turbinada sem a burocracia bancária. Os bancos, liderados por JPMorgan e Bank of America, estão em pânico. Um estudo do Tesouro americano estima que até US$ 6,6 trilhões em depósitos poderiam migrar dos bancos para stablecoins se isso for liberado.
Seis. Vírgula. Seis. Trilhões.
"The Genius Act is being threatened and undermined by the Banks, and that is unacceptable", escreveu Trump. "They need to make a good deal with the Crypto Industry because that's what's in best interest of the American People."
Traduzindo do Trump-ês: "Banqueiros, façam um acordo ou eu passo por cima de vocês."
Jamie Dimon vs. Brian Armstrong: o duelo que ninguém pediu
De um lado, Jamie Dimon — o CEO do JPMorgan que adora se apresentar como a voz da razão de Wall Street. Dimon disse à CNBC na segunda-feira que permitir que empresas crypto atuem como "quase-bancos" sem a mesma regulação seria desastroso. "O público vai pagar. Vai ficar feio", avisou.
Do outro lado, Brian Armstrong, CEO da Coinbase, que tem repetido incansavelmente uma frase que Trump praticamente copiou em seu post: "Americanos deveriam ganhar dinheiro sobre seu dinheiro."
E adivinhe quem estava na Casa Branca visitando Trump pouco antes do presidente soltar seu post? Armstrong. Que coincidência bonita, não?
As ações da Coinbase dispararam até 15% no pregão de quarta-feira. JPMorgan e Bank of America caíram — pouco, menos de 1%, porque bancão é bancão. Mas o recado foi dado.
O elefante na sala: conflito de interesses
Agora, vamos falar sobre o que a grande mídia menciona de passagem e nós vamos cravar aqui em negrito: Trump e sua família têm interesses financeiros diretos no mundo crypto. A plataforma World Liberty Financial, ligada aos Trump, supostamente já gerou centenas de milhões de dólares para a família.
Isso significa que o presidente dos Estados Unidos está tomando partido numa batalha regulatória que afeta diretamente seu próprio bolso.
Nassim Taleb ia adorar essa. Skin in the game — literalmente. Só que quando o cara com skin in the game é o mesmo cara que assina a lei... porra, aí o conceito muda de figura, não é?
O argumento que ninguém quer ouvir
Aqui vai a parte incômoda: os dois lados têm razão — e os dois lados estão mentindo.
Os bancos estão certos de que uma fuga de US$ 6,6 trilhões em depósitos poderia desestabilizar o sistema, especialmente bancos regionais menores. Isso não é paranoia. É matemática.
Mas os bancos também estão lutando para proteger um monopólio absurdo sobre os depósitos do americano médio, pagando rendimentos miseráveis enquanto embolsam bilhões em spread. O Dimon fala em "risco sistêmico" mas o que ele quer dizer é "risco ao meu bônus".
As empresas crypto estão certas de que o consumidor merece opções melhores e que stablecoins lastreadas em Treasurys podem ser seguras. Mas elas também querem os benefícios de ser um banco sem carregar o peso regulatório de ser um banco. Querem ser o restaurante que não precisa de inspeção sanitária.
E Trump? Trump quer ganhar dos dois lados. Sempre.
O que isso muda na prática
O Genius Act — a lei que regulamenta stablecoins — está travado no Congresso exatamente por causa dessa briga. O Clarity Act, lei complementar, também está parado. Com Trump se posicionando publicamente, a pressão sobre os republicanos no Congresso aumenta exponencialmente.
Mas "pressão" não é "garantia". Muitos congressistas republicanos dependem das doações dos grandes bancos tanto quanto das doações do setor crypto. Essa votação vai ser um teste de lealdade — e de bolso.
Enquanto isso, o investidor brasileiro que olha de fora precisa entender uma coisa: o resultado dessa briga vai definir o futuro das stablecoins globalmente. Se os EUA liberarem yield em stablecoins com regulação clara, o fluxo de capital para esse mercado será brutal. Se os bancos vencerem, a inovação vai pra outro lugar.
E você? Está assistindo essa briga de camarote ou já tem seu dinheiro na mesa?
Porque quando o Corleone senta no restaurante, ninguém sai igual.