"Pokémon significa muito mais do que um Picasso para as pessoas."
Essa frase foi dita sem ironia por AJ Scaramucci — sim, filho do Anthony Scaramucci, aquele que durou 11 dias como diretor de comunicação da Casa Branca — ao justificar por que pagou US$ 16,5 milhões num cartão de Pokémon.
Dezesseis milhões e meio de dólares. Num pedaço de papel com um Pikachu desenhado.
Respira. Vamos dissecar isso.
O circo montado
Logan Paul — influenciador, lutador de WWE, vendedor profissional de hype — comprou o tal card "Pikachu Illustrator" em 2021 por US$ 5,3 milhões. Vendeu agora por US$ 16,5 milhões. Retorno de mais de 200%.
A CNBC coloca isso lado a lado com o S&P 500 (+15,2% no ano) e o Alphabet (+73,4%), como se comparar um leilão de item único com índices de mercado fizesse algum sentido lógico. É como comparar o preço de um rim no mercado negro com o CDI. Tecnicamente são "retornos", mas porra, é a mesma coisa?
O card é de 1998. Existem poucas dezenas no mundo. É raro? Sem dúvida. Bonito? Depende do gosto. Investimento? Aqui a coisa complica.
A sedução do "ativo alternativo"
AJ Scaramucci, fundador da Solari Capital, diz que está numa "caça ao tesouro planetária" — quer colecionar ativos escassos de várias categorias junto com o irmão mais novo. Parece enredo de filme do Nicolas Cage. Ele argumenta que cards de Pokémon são uma forma de jogar o "debasement trade" — a tese de que, com governos desvalorizando moedas, você precisa ter ativos reais, tangíveis.
Até aí, a lógica é velha. Ouro, imóveis, terras, obras de arte — gente séria usa essas coisas como hedge há séculos. Mas um card de Pokémon não é ouro. Ouro não depende de um leilão da Goldin Auctions (que pertence ao eBay, diga-se) para descobrir quanto vale. Ouro não precisa que a próxima geração continue achando Pikachu relevante.
Ken Goldin, CEO da casa de leilões que intermediou a venda, disse que "as pessoas acreditam firmemente que trading cards são uma classe de ativos alternativa legítima." Claro que ele disse isso. Ele ganha comissão em cima de cada venda. É como perguntar pro barbeiro se você precisa cortar o cabelo.
Nassim Taleb chamaria isso de falta de skin in the game invertida: quem mais lucra com a narrativa de que colecionáveis são investimento são os intermediários, não os colecionadores.
O que os adultos da sala dizem
Paul Karger, da TwinFocus, uma firma que assessora famílias ricas, foi diplomático mas cirúrgico: "Pense nisso como paixão primeiro e investimento em segundo lugar. Não é substituto para ativos financeiros."
E ele apontou o elefante na sala: iliquidez. Você não vende um card de Pokémon de US$ 16 milhões no home broker às 10h da manhã. Você precisa de um leilão, um comprador disposto, um mercado aquecido. Se o hype esfriar — e hypes sempre esfriam — você fica com um pedaço de papel caro numa gaveta climatizada.
A própria Kaycee LeCong, da Brighton Jones, lembrou que ganhos de capital em colecionáveis são tributados de forma diferente (e geralmente pior) do que investimentos tradicionais. Detalhe que os entusiastas convenientemente esquecem.
O índice que ninguém audita
A Card Ladder, firma de analytics, diz que o "índice Pokémon" subiu 145% no último ano. O volume mensal de vendas secundárias quase dobrou em dois anos. O CEO do eBay confirmou que colecionáveis foram o maior motor de crescimento do GMV no quarto trimestre.
Números bonitos. Mas lembra da bolha dos NFTs? Em 2021, o mercado de JPEGs tokenizados também tinha "índices" subindo 300%, 500%. Hoje, 95% daquilo vale zero. Mercados de colecionáveis não têm fundamentos auditáveis. Não há fluxo de caixa, não há lucro por ação, não há dividendo. O preço é literalmente o que o próximo maluco está disposto a pagar.
Isso não é investimento. Isso é a Teoria do Maior Tolo vestida com nostalgia dos anos 90.
A pergunta que importa
Olha, se você é rico, ama Pokémon e quer torrar US$ 16 milhões num card raro — vai fundo. Dinheiro é seu, vida é sua. O próprio Buffett coleciona ações da Coca-Cola por amor à marca.
Mas se você está olhando pra isso e pensando "talvez eu devesse colocar minha reserva de emergência em cards de Pokémon porque o retorno é maior que o S&P"... pelo amor de Deus, senta, toma um café, e relê Benjamin Graham.
Colecionável é hobby de rico. Quando vira "estratégia de investimento" pra classe média, alguém está prestes a ficar com o mico na mão.
E geralmente não é quem vendeu o card.