Tem uma cena clássica do filme O Poderoso Chefão em que Michael Corleone diz: "Toda vez que eu penso que saí, eles me puxam de volta."

Pois é. A Versant Media Group (VSNT) acabou de publicar seu primeiro balanço como empresa independente — recém-separada da Comcast — e o relatório tem exatamente esse cheiro: uma empresa que quer desesperadamente ser o futuro digital, mas que continua acorrentada ao cadáver ambulante da TV paga.

Os números que ninguém quer ler em voz alta

Receita anual de 2025: US$ 6,69 bilhões. Queda de 5% em relação ao ano anterior. E olha que esse ainda era o último ano sob o guarda-chuva da NBCUniversal, ou seja, com toda a infraestrutura e sinergia da Comcast por baixo.

Vamos destrinchar essa beleza:

  • Receita de distribuição linear (leia-se: TV a cabo tradicional): caiu 5,4%, para US$ 4,1 bilhões.
  • Receita de publicidade: despencou quase 9%, para US$ 1,58 bilhão.
  • Lucro líquido: US$ 930 milhões. Ok, a empresa é lucrativa. Mas a direção da seta importa mais que o número absoluto — e a seta aponta pra baixo.
  • EBITDA ajustado do Q4: US$ 521 milhões, uma queda de 19% comparado ao mesmo trimestre do ano anterior.

Dezenove por cento. Num único trimestre. Se isso fosse um paciente num hospital, já teriam chamado o padre.

O circo da "transição"

Agora vem a parte que me faz revirar os olhos. O CEO Mark Lazarus subiu no palco do earnings call e basicamente disse: "Calma, galera, 2026 é o ano da transição."

Transição. Essa é a palavra favorita de toda empresa que está perdendo a guerra e precisa de mais tempo. É o equivalente corporativo de "dessa vez vai ser diferente" dito por aquele amigo que já faliu três vezes.

A tese é a seguinte: hoje, mais de 80% da receita da Versant vem de TV paga. Eles querem chegar a 50% de receita vinda de negócios digitais — plataformas, assinatura direta ao consumidor, ad-supported, transacional. Bonito no PowerPoint.

Na vida real? A receita de plataformas (Fandango, GolfNow, Sports Engine) representou 19% do total em 2025. A meta de três a cinco anos é chegar a 33%, e "eventualmente" a 50%.

Eventualmente. Essa palavra deveria ser proibida em earnings calls.

O que eles têm no arsenal

Pra ser justo — e a gente tenta ser justo aqui, mesmo quando dói — a Versant não é uma empresa burra. Ela tem ativos reais:

  • CNBC (sim, a própria dona da notícia é subsidiária da Versant, pra quem não sabia)
  • Fandango e Rotten Tomatoes (referências gigantes no mundo de cinema)
  • Golf Channel, USA Network, Syfy, E!, Oxygen
  • O CNBC Pro e um novo produto para investidores de varejo

A empresa também declarou dividendo trimestral de US$ 0,375 por ação (US$ 1,50 anualizado) e autorizou um programa de recompra de US$ 1 bilhão. Ou seja: dívida baixa, margens ainda gordas, e uma gestão que pelo menos sabe que precisa devolver grana ao acionista enquanto tenta se reinventar.

O CFO Anand Kini disse que "retornar capital aos acionistas é prioridade máxima, junto com investimentos disciplinados para crescimento de longo prazo."

Tradução do economês: "A gente sabe que a TV paga tá morrendo, então vamos te pagar dividendos pra você não vender a ação enquanto tentamos virar o barco."

O elefante na sala

O problema fundamental é simples e brutal: a TV por assinatura é um negócio em declínio estrutural. Não é cíclico. Não vai voltar. As pessoas cortaram o cabo e foram pro streaming — e ninguém reconecta Sky pra assistir Syfy.

A Versant precisa que seus negócios digitais cresçam rápido o suficiente para compensar o derretimento da base tradicional. E esse é o tipo de corrida que poucas empresas de mídia venceram. A maioria virou estudo de caso sobre destruição de valor.

Buffett tem aquela máxima: "Quando um management com reputação brilhante encontra um negócio com economia ruim, é a reputação do negócio que permanece intacta."

A Versant tem gente competente. Mas a gravidade da TV paga não respeita competência.

A pergunta que você deveria se fazer antes de colocar um centavo nessa ação: você está comprando uma empresa em transição real, ou está financiando o funeral mais bem-vestido da história da mídia?