Tem uma cena no filme Whiplash em que o cara toca bateria quase perfeitamente — sangue nos dedos, suor escorrendo — e o professor psicopata diz: "Fora do tempo."
É exatamente o que Wall Street fez com o Walmart na quinta-feira.
A maior varejista do planeta (ou será que não é mais? já chego lá) entregou um quarto trimestre fiscal com crescimento de quase 6% nas vendas, bateu as estimativas de lucro por ação (74 centavos ajustados vs. 73 esperados) e receita ($190,66 bilhões vs. $190,43 bi esperados). E-commerce voando. Marketplace de terceiros crescendo. Publicidade gerando grana. Até os ricos — sim, famílias com renda acima de US$ 100 mil por ano — estão comprando mais no Walmart.
E o que o mercado fez? Derrubou a ação 1,38%.
Porra, que ingratidão.
O crime imperdoável: guidance "fraco"
O pecado do Walmart não foi o trimestre passado. Foi o futuro. A projeção de lucro por ação para o ano fiscal completo veio entre US$ 2,75 e US$ 2,85. Wall Street queria US$ 2,96.
Onze centavos de diferença. É isso. Onze míseros centavos entre "empresa sensacional" e "venda tudo".
Isso diz mais sobre as expectativas infladas de analistas sentados em escritórios climatizados do que sobre a saúde real do negócio. O Walmart está crescendo vendas comparáveis em 4,6% nos EUA, ganhando market share em todas as faixas de renda, e o CFO John David Rainey — que é o cara que realmente conta o dinheiro — disse que a inflação nos produtos está normalizando perto de 1%.
Traduzindo do economês: os preços estão parando de subir feito foguete, e o Walmart está absorvendo o impacto das tarifas do Trump melhor que a concorrência. Escala é poder, meu amigo.
O elefante na sala: Amazon passou o Walmart
Aqui está o plot twist que pouca gente está digerindo direito.
Pela primeira vez na história, a Amazon ultrapassou o Walmart em receita anual. US$ 716,9 bilhões contra US$ 713,2 bilhões. É o equivalente corporativo daquela cena do Rocky IV em que o Drago finalmente conecta o soco.
Claro, a comparação é meio torta — boa parte da receita da Amazon vem de AWS (computação em nuvem), não de vender sabão em pó. Mas o simbolismo é brutal. E o Doug McMillon, que era CEO até 1º de fevereiro, sabia disso. Não à toa, o Walmart vem seguindo o playbook da Amazon: marketplace de terceiros, publicidade digital, entregas rápidas a partir das lojas.
O novo CEO John Furner herdou essa missão. Esse é o primeiro earnings report sob o comando dele, e a mensagem está clara: o Walmart não é mais "só" um supermercado gigante. É uma plataforma.
O que realmente importa aqui
O lucro líquido caiu — de US$ 5,25 bilhões no ano passado para US$ 4,24 bilhões. Mas antes de sair correndo, entenda: boa parte dessa queda vem de ajustes contábeis (ganhos e perdas de investimento, acordos jurídicos, reorganizações). O lucro ajustado por ação subiu.
A história real é outra. O Walmart está:
- Ganhando clientes de alta renda — moda cresceu em dígito único médio no trimestre, e quase todo esse crescimento veio de famílias que ganham mais de US$ 100 mil/ano
- Dominando entregas rápidas — a velocidade de entrega a partir das lojas está virando vantagem competitiva real
- Diversificando receita — ads e marketplace são margens muito mais gordas que vender banana
E as ações, mesmo com a queda de quinta? Subiram 20% em 12 meses e 12% no ano. S&P 500 fez 12% em 12 meses e menos de 1% no ano. Ou seja: o Walmart está esmagando o índice.
A pergunta que ninguém quer responder
Rainey disse que o impacto das tarifas já foi "em grande parte absorvido" pelo varejo. Bonito no PowerPoint. Mas o Walmart tem um poder de barganha que 95% dos varejistas americanos não têm. Extrapolar a saúde do Walmart para o resto da economia é como olhar pro LeBron James e concluir que todo mundo de 40 anos está em forma.
Então fica a reflexão: você está comprando Walmart a 20% de alta no ano porque acredita na tese de plataforma — ou porque está seguindo a manada que já levou o preço pra cima?
Porque no mercado, como diria o Taleb, quem chega atrasado na festa é quem paga a conta do bar.