Sabe aquela cena do Titanic em que a orquestra continua tocando enquanto o navio afunda? Pois é. É mais ou menos isso que acontece quando você olha pro desempenho da Wells Fargo comparado ao Nasdaq e percebe que metade de Wall Street continua recomendando o papel como se fosse 2019.
O fato nu e cru
A Wells Fargo — aquele mesmo banco que já foi pego fabricando milhões de contas falsas em nome de clientes — está ficando pra trás do Nasdaq de um jeito que deveria fazer qualquer investidor coçar a cabeça.
Enquanto o Nasdaq, turbinado pelas big techs e pela febre de inteligência artificial, segue numa trajetória que faria um foguete da SpaceX ter vergonha, as ações da Wells Fargo patinam. Não estamos falando de um mês ruim. Estamos falando de uma tendência que se arrasta e que os grandes veículos de mídia financeira preferem esconder atrás de paywalls e pop-ups de cookies — como aliás foi o caso da própria fonte original dessa notícia no Yahoo Finance, que em vez de te entregar informação útil, te recebe com uma muralha de "aceite nossos cookies" antes de te mostrar qualquer dado.
Porra, que modelo de jornalismo financeiro é esse?
O problema não é só a Wells Fargo. É o setor inteiro.
Vamos ao que interessa. Bancos tradicionais americanos estão vivendo um dilema existencial. As taxas de juros altas do Fed, que em tese deveriam engordar as margens dos bancos, trouxeram junto um pacote de problemas: inadimplência subindo, carteira de títulos desvalorizada (lembra do Silicon Valley Bank?), e regulação mais apertada depois dos sustos de 2023.
A Wells Fargo, especificamente, ainda carrega o fardo do asset cap — aquele limite imposto pelo Fed em 2018 como punição pelo escândalo das contas fantasmas. Até hoje. Seis anos depois. O banco opera com um teto de ativos que impede seu crescimento. É como jogar futebol com uma perna amarrada.
Enquanto isso, as empresas do Nasdaq — Microsoft, Nvidia, Meta, Apple — estão nadando em caixa, surfando a onda da IA e recomprando ações como se não houvesse amanhã.
Comparar Wells Fargo com o Nasdaq é quase injusto. Mas é exatamente esse o ponto.
O que ninguém te conta
O investidor brasileiro que olha pra fora — e cada vez mais gente tá fazendo isso, corretamente — precisa entender uma coisa fundamental que o Nassim Taleb martelou até cansar: não confunda o nome da instituição com a qualidade do investimento.
Wells Fargo é um nome centenário. Um dos "Big Four" dos bancos americanos. Warren Buffett foi acionista durante décadas. Mas o próprio Buffett reduziu drasticamente sua posição. Quando o Oráculo de Omaha — o cara que tem mais skin in the game do que qualquer analista de LinkedIn — começa a pular fora do barco, talvez você devesse pelo menos prestar atenção.
Sabe o que é ainda mais revelador? Buffett vendeu Wells Fargo e aumentou posição em... empresas de tecnologia e seguradoras. O velho não é burro.
A armadilha do "tá barato"
Sempre aparece alguém dizendo: "Mas a Wells Fargo tá com P/L baixo, tá barata!"
Sabe o que mais tava "barato"? Kodak em 2010. Blockbuster em 2008. Citigroup em 2007.
Preço baixo sem catalisador de mudança é só um número caindo. Como dizia Benjamin Graham — o pai do value investing, não um tiktoker de calça skinny —, o mercado no curto prazo é uma máquina de votação, mas no longo prazo é uma balança. E a balança tá pesando contra os bancões tradicionais.
Isso não significa que Wells Fargo vai quebrar. Longe disso. Mas "não vai quebrar" é um critério bem merda pra escolher onde colocar seu dinheiro, concorda?
A pergunta que importa
Se você tem Wells Fargo na carteira — ou qualquer bancão americano tradicional — me responde com honestidade: você tá segurando porque fez uma análise fundamentalista atualizada, ou porque o nome grande te dá conforto emocional?
Porque conforto emocional não paga dividendo. E enquanto você dorme tranquilo com seu "banco sólido", o Nasdaq segue comendo o almoço, o jantar e a sobremesa do seu retorno.
Às vezes, o maior risco não é investir em algo volátil. É ficar parado achando que estabilidade e mediocridade são a mesma coisa que segurança.