"Medo de perder" é a narrativa favorita de quem já perdeu o juízo.

Em 2025, o mundo fez $4,9 trilhões em fusões e aquisições. Recorde histórico. Superou o pico de 2021 — aquele ano de dinheiro impresso, juros zero e euforia coletiva que fez todo mundo se sentir gênio. Agora em 2026, 80% dos executivos de M&A ouvidos pela Bain & Company dizem que vão manter ou aumentar o ritmo de negócios.

Oitenta por cento.

Isso é o tipo de número que soa bonito em apresentação de PowerPoint e assusta quem leu Taleb.


O circo está armado, os palhaços estão animados

Deixa eu traduzir o que está acontecendo em linguagem humana.

As empresas saíram de um 2025 turbulento — com tarifas do Trump, volatilidade política e bancos centrais cortando juros — e chegaram em 2026 com uma mistura perigosa: confiança renovada + síndrome de FOMO coletivo.

Jake Henry, chefão global de M&A da McKinsey, disse exatamente isso, só que com terno e vocabulário corporativo: "O choque das políticas comerciais virou um padrão menos ameaçador, o alívio virou confiança e a confiança virou medo de ficar de fora."

Tradução direta: o mercado está comprando porque tem medo de não comprar. Clássico.

É o mesmo script de sempre. Só muda o figurino. Em 2021 era a narrativa do dinheiro infinito. Agora é a narrativa da IA. A Inteligência Artificial virou o novo óleo do século XXI — todo mundo quer um pedaço, todo mundo está pagando caro por isso, e ninguém sabe direito qual o preço justo.

Goldman Sachs ficou no topo do ranking global de M&A, assessorando quase 40 deals que somaram $1,48 trilhão. Um ano glorioso pra quem cobra 1% de advisory fee e não tem skin in the game se o negócio der errado.


O detalhe que ninguém quer encarar

Aqui mora o problema real, e a mídia financeira mainstream passa por ele como se fosse nota de rodapé.

A proporção de capital alocado para M&A atingiu o menor nível em 30 anos em 2025, segundo a própria Bain.

Trinta anos.

Enquanto o número de deals e o volume total batem recordes históricos, o dinheiro disponível para financiar esses negócios está no fundo do poço. As empresas estão direcionando caixa para dividendos, recompra de ações, capex e P&D. Sobrou menos para apostar em aquisições.

Mas as aquisições estão acontecendo do mesmo jeito. Em volume recorde.

Alguém aqui enxerga a contradição ou só eu?

É como jogar pôquer com fichas que você não tem. A mesa está cheia, as apostas estão altas, e a maioria dos jogadores está alavancada até o pescoço. Funciona enquanto ninguém pede pra ver as cartas.


A IA como desculpa universal

Toda era tem seu MacGuffin — aquele objeto misterioso que move a trama sem precisar fazer sentido de verdade.

Nos anos 90 era a internet. Nos anos 2000 era o mercado imobiliário americano. Em 2021 eram as SPACs e as criptos. Em 2026, é a IA.

Não estou dizendo que inteligência artificial é fraude. Longe disso. Estou dizendo que quando uma tecnologia vira justificativa para qualquer valuation e qualquer deal, é hora de ligar o detector de fumaça.

Suzanne Kumar, vice-presidente da Bain, disse que as empresas "precisam urgentemente se reinventar" para sobreviver à disrupção tecnológica e ao mundo pós-globalização. Verdade. Mas reinventar-se fazendo aquisição cara com capital escasso e múltiplos esticados não é reinvenção — é desespero com blazer.

O índice de sentimento de M&A do Boston Consulting Group subiu, mas continua bem abaixo da média histórica de 100. Os próprios consultores que vendem esse otimismo admitem que o mercado está "melhorando, mas cauteloso".

Cauteloso e gastando $4,9 trilhões ao mesmo tempo.


O que Buffett faria?

Warren Buffett ficou 2024 inteiro acumulando caixa na Berkshire. Chegou a quase $330 bilhões parado, sem fazer grande aquisição. Todo analista de terno reclamou. "Buffett perdeu o toque." "O mercado passou por ele."

E ele ficou quieto. Porque quem tem décadas de ciclo na memória sabe que o melhor deal muitas vezes é o que você não faz.

Enquanto o mercado global corre para M&A movido por IA, FOMO e capital de terceiros, vale a pergunta que ninguém está fazendo nos relatórios bonitos da Goldman:

Quando o dinheiro ficar ainda mais caro e os resultados dessas aquisições não aparecerem, quem vai pagar a conta — o executivo que aprovou o deal ou o acionista que acreditou na narrativa?

Spoiler: você já sabe a resposta.