Tem uma cena no Coringa em que o cara diz: "A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse." Pois é. O mercado financeiro global está nesse exato momento fingindo normalidade enquanto o presidente dos Estados Unidos acabou de matar o líder supremo do Irã — e em três semanas deveria sentar pra tomar chá em Pequim com Xi Jinping.
Boa sorte com essa agenda.
O fato nu e cru
Trump anunciou no fim de semana que ataques conjuntos EUA-Israel eliminaram o aiatolá Ali Khamenei. Isso duas semanas depois de já ter sequestrado Nicolás Maduro e a esposa da própria residência na Venezuela. Dois líderes estrangeiros neutralizados em dois meses.
Agora, o cara quer ir a Pequim no dia 31 de março — a primeira visita de um presidente americano em exercício desde 2017 — negociar comércio com a China. A mesma China que tem relações diplomáticas sólidas com o Irã e com a Venezuela.
Se fosse um episódio de House of Cards, você diria que o roteirista forçou a barra.
Pequim não está feliz (e não disfarça)
O Ministério das Relações Exteriores da China condenou a morte de Khamenei chamando o ataque de "grave violação da soberania e segurança do Irã." Pediu cessar-fogo imediato. Mas — detalhe importante — foi menos direta em culpar os EUA do que tinha sido no caso Maduro.
Analistas leem isso como um "tom incomumente mais suave", nas palavras de Jack Lee, da China Macro Group. Ou seja: Pequim está irritada, mas ainda calculando se vale a pena explodir a mesa de negociação comercial por causa de Teerã.
George Chen, da The Asia Group, resumiu bem a esquizofrenia diplomática: "Como Xi pode se sentir normal e preparado pra receber Trump de bom humor?"
Resposta curta: não pode. Mas dinheiro fala mais alto que orgulho — e ambos os lados sabem disso.
O que os mercados de apostas estão dizendo
E aqui entra o que importa pra quem tem skin in the game.
A Polymarket mostrou uma queda brutal nas expectativas de que Trump visite a China até 31 de março: de 83,9% em 21 de fevereiro para 42% na segunda-feira. Porém, as apostas numa visita até 30 de abril continuam em 81%. Ou seja, o mercado não acha que a viagem morre — acha que atrasa.
Na Kalshi, a probabilidade de Trump ir à China até 2027 caiu levemente, mas segue em 91%.
Traduzindo do economês: o smart money está precificando delay, não cancelamento. A trégua comercial firmada em outubro é valiosa demais pra ambos os lados jogarem fora. Mas o timing ficou uma merda.
O problema dos CEOs americanos
Aqui a coisa fica ainda mais interessante. Várias delegações empresariais americanas estavam planejando embarcar com Trump pra fechar negócios na segunda maior economia do mundo. Padrão clássico — líderes de outros países já fizeram isso ao longo de 2026.
Mas segundo uma fonte da comunidade de negócios americana na China ouvida pela CNBC: "Antes do ataque ao Irã, muitos CEOs americanos já não queriam ir com Trump à China. Agora a situação ficou ainda mais complicada."
Porra, imagina o board meeting: "Chefe, vamos fechar aquele deal de US$ 500 milhões, mas o cara que vai nos apresentar acabou de assassinar o líder supremo do país aliado do nosso anfitrião. Levamos vinho ou flores?"
O elefante na sala: Taiwan
Jack Lee nota que o verdadeiro termômetro será se Washington sinalizar contenção na venda de armas a Taiwan. A ilha autogovernada continua sendo o pavio mais curto na relação EUA-China. Se Trump quiser demonstrar boa-fé pra Pequim depois de ter virado o Oriente Médio de ponta-cabeça, Taiwan é a moeda de troca óbvia.
E Trump disse ao Daily Mail que os ataques ao Irã podem durar quatro semanas — o que colidiria diretamente com a data de 31 de março.
A mídia estatal chinesa fez questão de destacar esse detalhe na segunda de manhã. Coincidência? No xadrez geopolítico, nada é coincidência.
E aí, o que isso muda pra você?
Se você tem exposição a mercados emergentes, commodities de energia ou qualquer coisa que dependa de estabilidade na relação EUA-China, a próxima semana é pra ficar acordado. A trégua comercial não morreu, mas está na UTI do risco geopolítico.
A pergunta que ninguém no mercado quer fazer em voz alta: se Trump trata aliados e inimigos com a mesma imprevisibilidade, quanto vale de fato qualquer acordo que ele assinar em Pequim?