Sabe aquela cena do Monty Python em que o cavaleiro negro perde os dois braços e as duas pernas e grita "é só um arranhão"?
Pois é. A Lucid acabou de entregar o relatório do quarto trimestre de 2025 e a sensação é exatamente essa.
Os números que ninguém quer ver
Prejuízo por ação: US$ 3,62. Wall Street esperava US$ 2,62. Não é um errinho de arredondamento. É errar o alvo por quase 40%. É tipo mirar no gol e acertar a arquibancada.
A receita até veio acima — US$ 523 milhões contra US$ 468 milhões esperados. Bonito no papel. Mas quando você queima US$ 814 milhões de prejuízo em um único trimestre — mais que o dobro do mesmo período do ano anterior — a receita é tipo botar um band-aid num ferimento de bala.
No ano inteiro, o prejuízo líquido foi de US$ 2,7 bilhões. Isso mesmo, com "b". Para contexto, a receita anual foi de US$ 1,35 bilhões. Ou seja, para cada dólar que entrou, dois saíram queimados. Negócio bonito, hein?
A demissão que "não vai continuar"
Dias antes dos resultados, a Lucid demitiu 12% da força de trabalho assalariada nos EUA. O CEO interino Marc Winterhoff — sim, interino, porque nem CEO fixo essa empresa tem — disse ao CNBC que os cortes eram um "realinhamento necessário" e que "não vai continuar no futuro."
Alguém pega o bingo corporativo? "Streamline operations", "greater efficiency", "deliver on our commitments to gross margin improvement." É o pacote completo de frases que toda empresa usa quando as coisas estão indo pro buraco e o RH precisa de um comunicado bonitinho.
A meta de 2026: otimismo ou delírio?
A Lucid projeta produzir entre 25.000 e 27.000 veículos em 2026. Isso representaria um aumento de 40% a 51% sobre os números revisados de 2025.
Ah, sim. Revisados. Porque descobriram que 538 veículos não tinham completado "procedimentos internos de validação" para serem classificados como produzidos. Então a produção de 2025 caiu de 18.378 para 17.840 unidades. Porra, se você não sabe nem quantos carros produziu, como eu vou confiar na sua projeção futura?
E tem um detalhe que o Winterhoff mesmo admitiu: "Nossos planos iniciais eram mais altos, mas queríamos ser conservadores." Traduzindo do economês: a realidade deu um tapa na cara e eles ajustaram pra baixo antes de passar vergonha.
Comparado com 2025 — quando quase dobraram a produção — crescer 40% a 50% é desacelerar. Winterhoff chama isso de "saudável". Eu chamaria de "o mínimo pra não morrerem".
O SUV Gravity carrega o peso nas costas
O plano é que o Gravity, o SUV da marca, represente a maior parte da produção e vendas em 2026. O sedan Air fica em segundo plano. Um veículo de médio porte e mais acessível começa a ser produzido no fim do ano, mas não deve impactar os números de 2026.
E tem mais: robotáxis. A Lucid quer lançar seus primeiros robotáxis com parceiros já anunciados. Porque quando sua empresa está sangrando bilhões, a decisão mais lógica é obviamente entrar numa das áreas mais complexas, reguladas e capital-intensivas da indústria automotiva. Faz todo sentido.
A liquidez — o único número apresentável
US$ 4,6 bilhões em liquidez total. O CFO Taoufiq Boussaid chamou isso de "forte". E de fato é um colchão gordo. Mas quando você queima quase US$ 3 bilhões por ano, essa liquidez é um cronômetro, não um escudo.
Ninguém na empresa quis dizer quando esperam ser lucrativos. Marcaram um investor day em 12 de março em Nova York. Vamos ver se têm coragem de responder essa pergunta olhando nos olhos dos investidores.
A pergunta que fica
A Lucid tem tecnologia boa. Tem um carro bonito. Tem dinheiro do fundo soberano da Arábia Saudita bancando a festa. Mas tecnologia boa sem execução é PowerPoint.
O mercado de EVs está desacelerando. A concorrência — Tesla, BYD, Rivian, e até as montadoras tradicionais — está cada vez mais feroz. E a Lucid está queimando caixa como se fosse lenha em fogueira de São João.
A verdadeira questão não é se a Lucid consegue produzir 27.000 carros. É se alguém vai comprá-los rápido o suficiente antes do dinheiro acabar.
Você apostaria suas fichas numa empresa sem CEO fixo, sem lucro no horizonte e com um histórico de não saber nem contar quantos carros produziu?