Tem uma frase que o velho Rupert Murdoch (pai do Lachlan) disse nos anos 90 que resume tudo: "O esporte é o único conteúdo à prova de DVR." Traduzindo pro mundo de hoje: é o único conteúdo à prova de skip, de ad-blocker, de algoritmo. Você não assiste o replay do Super Bowl na segunda-feira. Ou você tá lá, ao vivo, ou você é irrelevante na conversa do escritório.

E a NFL sabe disso melhor do que qualquer um.


O negócio na mesa

A NFL está sentada na mesa com a Paramount Skydance — dona da CBS — pra renegociar os direitos de transmissão dos jogos de domingo à tarde. O preço atual? Cerca de US$ 2,1 bilhões por ano. O que a liga quer? Um aumento de aproximadamente 50%. Faz a conta: estamos falando de algo em torno de US$ 3 bilhões por temporada.

Três. Bilhões. De. Dólares. Por ano. Por um pacote de jogos.

Em troca, a NFL eliminaria a cláusula de opt-out que tinha no contrato original — aquela que permitia à liga pular fora depois da temporada 2029-30. Ou seja: a CBS pagaria mais, mas teria garantia de manter o conteúdo mais valioso da televisão americana até 2033-34. Oito anos de contrato firme.

A cenoura e o chicote. Clássico.


Por que a CBS é a primeira da fila?

Aqui fica interessante. A NFL escolheu negociar com a Paramount/CBS antes de todos os outros parceiros (Fox, NBC/Comcast, Amazon, Disney/ESPN) por um motivo muito específico: a aquisição da Paramount pela Skydance Media ativou uma cláusula de mudança de controle que permite à NFL romper o contrato já em 2027.

Sacou o jogo? A NFL tem uma faca no pescoço da Paramount e tá usando. "Quer manter seus jogos de domingo? Paga mais. Agora."

O David Ellison, CEO da Paramount, foi diplomático na entrevista à CNBC: "Temos uma relação fenomenal com a NFL e pretendemos que continue." Tradução do economês corporativo: "Vamos pagar o que eles pedirem porque não temos escolha."

E ele tem razão. O EBITDA ajustado projetado da Paramount pra 2026 é de US$ 3,6 bilhões. Se a fusão com a Warner Bros. Discovery for aprovada pelos reguladores, esse número pula pra US$ 18 bilhões. Com esse tamanho, um bilhão a mais pelo conteúdo mais assistido da TV americana vira custo de fazer negócio.


O efeito dominó

Depois da CBS, a NFL planeja ir pra cima da Fox, que paga cerca de US$ 2,2 bilhões pelo outro pacote de domingo. Lachlan Murdoch já deixou escapar na conferência da Morgan Stanley que pretende "continuar a relação mutuamente benéfica" — o que em Murdochês significa "estou preparado pra assinar o cheque, mas vou tentar chorar desconto."

E aqui vem a parte que ninguém tá falando: executivos da NBC e da Disney estão putos. Segundo fontes da CNBC, eles acham que seus pacotes — Sunday Night Football e Monday Night Football — perderam valor relativo porque a NFL deu jogos melhores pra Amazon no Thursday Night Football. A ESPN já paga US$ 2,7 bilhões pelo Monday Night. Um aumento de 50% jogaria isso pra mais de US$ 4 bilhões.

Porra. Quatro bilhões por uma noite de futebol americano por semana.


O que isso significa pro investidor

Se você tem ações da Paramount (PSKY), da Disney, da Comcast ou da Fox no portfólio, presta atenção. Esses contratos são o ativo estratégico dessas empresas. A NFL não é parceira — é a dona da relação. Sempre foi.

A liga fatura sem risco operacional, sem investir em produção, sem se preocupar com audiência caindo. Quem carrega o risco são as emissoras. E quando os contratos vencem, a NFL simplesmente aumenta o preço. É o modelo de negócio mais próximo de um pedágio que existe no entretenimento.

Warren Buffett adoraria esse negócio. Aliás, talvez por isso ele tenha comprado ações de mídia ao longo dos anos — o sujeito entende de moats como ninguém.

A pergunta que fica é simples: se a NFL consegue extrair 50% a mais num ambiente de incerteza econômica, juros altos e audiência fragmentada... quem exatamente tem poder de barganha nessa mesa?

E mais importante: se você fosse acionista da Paramount, dormiria tranquilo sabendo que seu CEO chamou de "fenomenal" uma relação onde o outro lado te cobra um bilhão a mais e você agradece?