Tem um tipo de empresa que o mercado financeiro mainstream não sabe bem onde encaixar.

Não é um banco. Não é uma big tech. Não é uma montadora. É aquela empresa que fica no limbo — e justamente por isso, quando ela resolve entregar resultado de verdade, a galera acorda dando porrada no teclado pra comprar.

A Axon Enterprise é exatamente esse tipo de empresa.

Você provavelmente conhece pelo produto mais famoso: o taser. Aquela pistola elétrica que a polícia usa pra derrubar suspeito sem precisar puxar o revólver. Simples assim. Mas chamar a Axon de "fabricante de taser" em 2026 é como chamar a Amazon de "livraria".


O Número que Importa

No quarto trimestre, a empresa reportou $797 milhões em receita — contra uma estimativa de $755 milhões. Lucro ajustado de $2,15 por ação, quando o consenso esperava $1,60.

Ou seja: bateu em cima, bateu embaixo, bateu nos dois lados.

A ação disparou mais de 20% em um único dia.

E o guidance para 2026? Crescimento entre 27% e 30%. O mercado esperava 25,8%. Parece pouco? Pensa bem: estamos falando de uma empresa que já cresce 39% ao ano sobre uma base de quase $800 milhões trimestrais. Isso não é startup com projeção de Excel. Isso é execução.


A IA Que Não É Papo de Guru

Aqui é onde fica interessante — e onde eu preciso separar o joio do trigo.

Quando uma empresa de tecnologia fala "IA" em 2026, o reflexo natural é cruzar os braços e pedir pra ver. Porque depois de três anos de PowerPoints com "AI-powered", "AI-first" e "AI-native", a palavra virou praticamente um insulto à inteligência do investidor.

Mas a Axon não está vendendo narrativa. Está vendendo produto.

A IA da empresa já representa 10% do total de bookings — isso equivale a $750 milhões em reservas de contratos no ano passado. Entre as funcionalidades reais: reconhecimento automático de placas e um assistente de voz integrado à câmera corporal, chamado Axon Assistant, que já tem mais de 500 clientes ativos.

Sabe o que isso significa? Que um policial em campo pode falar com a câmera no peito e obter informações em tempo real. Parece cena de Black Mirror, mas é realidade em 2026 e já está sendo cobrado.

A CFO Brittany Bagley disse algo que merece atenção: ela espera que o segmento de software ultrapasse o hardware em crescimento em breve. O software já cresceu 40% no trimestre, chegando a $343 milhões.

Isso é o modelo SaaS entrando pela porta da frente do setor de segurança pública.


O CEO Rick Smith e o "Skin in the Game"

Nassim Taleb ensinou que você só deve ouvir quem tem algo a perder. O CEO Rick Smith fundou a empresa em 1993. Trinta e três anos depois, ainda está lá, ainda comanda o negócio, e disse numa call com analistas que a IA representa um "momento diferente de tudo que já viveu" na trajetória da empresa.

Olha: esse tipo de declaração de fundador-operador tem um peso diferente do que quando vem de um CEO recrutado no LinkedIn há seis meses.

Ele não está gerenciando trimestre. Está gerenciando legado.

E quando ele diz que vai "deploiar IA de forma mais agressiva e mais responsável do que qualquer outra empresa neste espaço", dá pra levar mais a sério do que os discursos genéricos de conferência que você assiste todo ano.


O Que O Mercado Mainstream Estava Fazendo Enquanto Isso

Enquanto a Axon construía silenciosamente um negócio de software sobre uma base de hardware já instalada em centenas de forças policiais e órgãos de segurança ao redor do mundo, o mercado estava ocupado discutindo se a Nvidia ia cair mais 5% ou se o Fed ia cortar juros.

É o circo de sempre.

A Axon tem algo que poucas empresas têm: clientes cativos por contrato, com custo de troca altíssimo, num mercado onde o concorrente principal é a burocracia governamental. Não é fácil trocar o fornecedor de câmera corporal de uma força policial estadual. Os dados, os sistemas, os contratos de manutenção — tudo amarra.

E por cima disso, a empresa jogou a meta de $6 bilhões em receita anual para 2028, com margem EBITDA ajustada de 28%.

Não é promessa de startup. É meta de empresa que já sabe como escalar.


A pergunta que fica é simples e desconfortável:

Quantas empresas na sua carteira têm clientes que literalmente não podem trocar de fornecedor sem uma licitação pública de dois anos, um segmento de software crescendo 40% ao trimestre, e um fundador com três décadas de skin in the game?

Se a resposta for zero, talvez o problema não seja o mercado.