Tem uma cena clássica no Coringa — não o de 2019, o original, de 1989, com Jack Nicholson. Ele entra no museu, joga dinheiro no ar pra multidão e todo mundo se atropela pra pegar. Enquanto isso, ele ri.

Toda vez que uma grande mídia financeira abre inscrições pra uma lista de "melhores empresas", eu me lembro dessa cena.

A CNBC acaba de abrir as inscrições pra quarta edição do World's Top Fintech Companies 2026, feita em parceria com a Statista. E olha — não estou dizendo que é fraude. Longe disso. Estou dizendo que vale prestar atenção no que essa lista revela sobre o momento do setor, além do óbvio.


O Circo Tem Estrutura

A lista inclui desde startups até gigantes como Mastercard, Stripe e Visa. No ano passado, entraram pela primeira vez a Bilt (aquela empresa de recompensas de aluguel), a TerraPay (pagamentos) e a Entsia (seguros). São empresas reais, com produtos reais. Tudo bem.

A novidade deste ano é que a RegTech — empresas que ajudam outras a cumprir obrigações regulatórias financeiras — virou categoria própria. Esse detalhe não é pequeno.

RegTech crescendo a ponto de ganhar cadeira própria numa lista dessa significa uma coisa só: o compliance virou negócio bilionário. O custo regulatório no setor financeiro global é tão absurdo que agora tem um ecossistema inteiro de empresas vivendo disso. Paradoxo? Um pouco. Oportunidade? Porra, sim.


Os Números Que Ninguém Destaca na Manchete

O relatório mais recente da KPMG diz que o mercado global de fintech captou US$ 44,7 bilhões em investimentos no primeiro semestre de 2025, em mais de 2.200 negócios.

Parece muito? Depende do ângulo.

No semestre anterior, foram US$ 54,2 bilhões. Ou seja, caiu quase 18% de um semestre pro outro. Isso não é detalhe. Isso é sinal.

O setor saiu da adolescência turbulenta — quando qualquer coisa com "app" e "financeiro" no pitch deck levantava cheque — e entrou numa fase de maturidade mais seletiva. O dinheiro fácil foi embora junto com a taxa de juros baixa. O que ficou precisa provar que existe um negócio de verdade, não só uma narrativa bonita pra slide de PowerPoint.

Taleb chamaria isso de antifragilidade sendo testada. Os frágeis quebraram. Os que sobreviveram ficaram mais fortes.


A Covid Fez o Trabalho Sujo

Tem um mérito histórico aqui que precisa ser reconhecido: a pandemia acelerou a digitalização financeira de um jeito que levaria uma década acontecer organicamente. Pessoas que nunca tinham aberto um aplicativo de banco na vida foram obrigadas a aprender. Idosos, pequenos comerciantes, trabalhadores informais — todo mundo entrou de vez no sistema digital.

E aí a IA chegou pra jogar gasolina na fogueira.

O problema é que "IA no fintech" virou o novo "blockchain vai resolver tudo" dos anos 2017-2018. Todo mundo jogando o termo no pitch, poucos realmente entregando algo que mude a vida de alguém. Os analistas de terno adoram essa narrativa. Fica bonito no relatório trimestral.


Skin in the Game: Quem Realmente Tem?

Aqui está minha provocação.

Quando a CNBC lista as "melhores fintechs do mundo", ela está listando empresas que aplicaram para estar lá. Você leu certo — é uma lista de candidatos voluntários, avaliados com base em crescimento de receita e número de funcionários, entre outros indicadores.

Não estou dizendo que os critérios são ruins. Estou dizendo que toda lista que depende de auto-declaração carrega um viés óbvio: os melhores em marketing aparecem junto com os melhores em resultado.

Buffett nunca precisou se inscrever em lista nenhuma. Kovner não mandou email pro Statista. Os grandes traders da história que Schwager entrevistou no Market Wizards ficaram ricos em silêncio, sem relações públicas.

A lista da CNBC tem utilidade — ela mapeia quem está ativo, quem está crescendo, quem está se posicionando no mercado. Mas confundir presença nessa lista com excelência real é o tipo de erro que o investidor amador comete e o profissional experiente nunca comete.


O prazo de inscrição vai até 24 de abril de 2026. As empresas interessadas submetem dados pelo formulário da Statista.

E você, que está lendo isso: quando foi a última vez que olhou pras empresas do seu portfólio com o mesmo ceticismo saudável que eu estou aplicando aqui?

O troféu não paga dividendo.