Sabe aquela cena do Coringa em que ele queima a montanha de dinheiro e diz que "não é sobre o dinheiro, é sobre mandar uma mensagem"?
Pois é. O mercado mandou uma mensagem na segunda-feira. E quem não ouviu, vai sentir no bolso.
O fato nu e cru
Bitcoin despencou pra US$ 64.830 na manhã de segunda-feira, completando uma queda de quase 5% que começou no domingo. No pior momento do fim de semana, o negócio bateu US$ 64.324 — o nível mais baixo desde 6 de fevereiro, quando tocou os US$ 60.062.
No momento do fechamento da reportagem, o BTC estava em US$ 66.699, ainda sangrando quase 4% no dia.
E o acumulado do ano? Menos 24%.
Leia de novo: menos vinte e quatro por cento desde janeiro.
Enquanto isso, ouro subiu 20% no mesmo período. Prata, 23%. O dinheiro esperto não estava comprando NFT de macaco — estava comprando o metal que civilizações usam como reserva de valor há cinco mil anos.
Mas por quê?
Dois vetores de merda batendo ao mesmo tempo, como um soco cruzado seguido de um uppercut:
Primeiro: tarifas. Trump — porque é claro que é Trump — postou nas redes sociais no sábado que iria elevar suas tarifas "retaliatórias" contra vários parceiros comerciais dos EUA para 15%, "com efeito imediato". Isso um dia depois de a Suprema Corte ter derrubado suas taxas comerciais anteriores. O cara literalmente levou um tapa jurídico e respondeu dobrando a aposta. Tipo aquele jogador de poker que perde uma mão e vai all-in na próxima com 7-2 offsuit. A confiança do mercado? Evaporou.
Segundo: Irã. Na semana passada, Trump disse que decidiria se ataca o Irã "nos próximos 10 dias, provavelmente", por causa da resistência iraniana a um novo acordo nuclear. Desde então, os EUA vêm posicionando forças militares pelo Oriente Médio como peças num tabuleiro de xadrez onde ninguém sabe as regras.
Guerra potencial + caos tarifário = fuga de ativos de risco. E adivinha quem é o ativo de risco mais volátil da festa? Nosso querido Bitcoin.
O jogo real que ninguém quer admitir
Olha, eu gosto de Bitcoin. Tenho skin in the game. Mas preciso ser honesto com vocês porque os gurus de Instagram não vão ser.
A narrativa de "Bitcoin é ouro digital e hedge contra incerteza" levou um tiro na cara em 2026. Quando a incerteza real chegou — não a incerteza filosófica de podcast, mas guerra e colapso comercial de verdade — o dinheiro correu pra onde? Pra ouro de verdade. Pra prata de verdade. Pra ativos que existem há milênios, não há 16 anos.
Isso não mata Bitcoin no longo prazo? Provavelmente não. Mas destrói a credibilidade de quem te vendeu a ideia de que cripto era porto seguro. Cripto é ativo de risco. Sempre foi. E em momentos de pânico geopolítico, ativo de risco apanha.
Nassim Taleb, que aliás é crítico feroz do Bitcoin, diria algo como: "Vocês confundiram narrativa com propriedade emergente." O fato de alguém dizer que Bitcoin é hedge não faz dele um hedge. O mercado decide. E o mercado decidiu.
O que ficar de olho
A situação com o Irã é a variável que ninguém consegue precificar. Se Trump realmente autorizar um ataque, espere ver sangue em tudo que é ativo de risco — cripto, small caps, tech especulativa, tudo. Ouro vai pra lua.
Se desescalar, Bitcoin pode recuperar parte da queda. Mas o estrago na confiança institucional já tá feito. ETFs de Bitcoin que entraram com pompa e circunstância em 2024 estão vendo resgates que fariam qualquer gestor perder o sono.
E as tarifas de 15%? Se essa porra se concretizar mesmo, o dólar pode se fortalecer no curto prazo — o que também é péssimo pra Bitcoin, que historicamente se move inversamente ao DXY.
A pergunta que importa
Você que comprou Bitcoin acima de US$ 80 mil ouvindo influenciador de rede social: qual era o seu plano se desse errado? Você tinha stop? Tinha tese? Ou só tinha fé?
Porque fé é ótima pra domingo na igreja. Pra mercado financeiro, você precisa de gestão de risco, tamanho de posição e humildade pra admitir quando a tese furou.
O mercado não te deve nada. Ele não liga pra sua convicção. Ele não respeita seu preço médio.
E ele acabou de provar isso de novo.