Existe um momento no filme Up in the Air em que o personagem do George Clooney explica com frieza cirúrgica por que demitir pessoas é, na verdade, uma oportunidade. O cara voa o país inteiro fazendo o trabalho sujo que os CEOs não têm estômago pra fazer pessoalmente.

Pois bem. Jack Dorsey não precisou de intermediário.

Na quinta-feira, o cofundador e CEO da Block (antiga Square) sentou na frente do teclado e escreveu uma carta aos acionistas que, traduzida do corporatês para o português, diz basicamente: "Estamos cortando metade da empresa. Mais de 4.000 pessoas. Tchau e bença."

E o mercado? O mercado respondeu com um orgasmo de 24% no after-market.

O que aconteceu de fato

A Block — aquela empresa que nasceu como Square, virou dona do Cash App e hoje é um conglomerado de pagamentos — anunciou junto com os resultados do quarto trimestre que vai reduzir seu quadro de mais de 10.000 funcionários para pouco menos de 6.000.

Leia de novo: quase metade da força de trabalho.

Não é um "ajuste fino". Não é "otimização de estrutura". É uma guilhotinada. E Dorsey fez questão de ser explícito sobre o motivo: inteligência artificial.

A CFO Amrita Ahuja disse sem rodeios que a empresa quer "avançar mais rápido com times menores e altamente talentosos usando IA para automatizar mais trabalho." Tradução: a máquina faz o que vocês faziam, e faz mais barato, sem pedir vale-refeição.

Os números não mentem

O resultado trimestral veio redondinho. Lucro ajustado de 65 centavos por ação com receita de US$ 6,25 bilhões — praticamente em cima da estimativa dos analistas. Mas o que fez Wall Street salivar foi a projeção pro ano inteiro: US$ 3,66 de lucro por ação, contra os US$ 3,22 que o mercado esperava.

Ou seja, a Block não está demitindo porque está mal. Está demitindo porque pode ficar muito melhor sem essa gente toda. E o mercado entendeu a mensagem instantaneamente.

O custo da brincadeira? Entre US$ 450 milhões e US$ 500 milhões em encargos de reestruturação — severance, benefícios, vesting de ações. Quase tudo concentrado no primeiro trimestre. Um band-aid arrancado de uma vez.

A parte que ninguém quer ouvir

Dorsey foi cirúrgico numa frase que deveria tirar o sono de muito profissional de escritório:

"Dentro do próximo ano, acredito que a maioria das empresas vai chegar à mesma conclusão e fazer mudanças estruturais semelhantes."

Porra. Releia isso.

O cara não está sendo modesto. Ele está dizendo que a Block é só a primeira ficha do dominó. E que preferiu agir agora, nos próprios termos, do que ser forçado a fazer "rounds repetidos de cortes" que, segundo ele, "destroem moral, foco e a confiança de clientes e acionistas."

É a lógica Taleb na veia: melhor tomar o veneno de uma vez do que morrer lentamente de doses homeopáticas. Antifragilidade corporativa, se você quiser um nome bonito.

O que isso significa pra quem investe

Preste atenção no padrão que está se formando. Meta fez algo parecido em 2023 — o "ano da eficiência" do Zuckerberg — e a ação triplicou. A Block está copiando o playbook com um twist ainda mais agressivo: não é 10%, não é 20%. É quase 50% do headcount.

Se os resultados dos próximos trimestres confirmarem que a empresa funciona igual ou melhor com metade das pessoas, o efeito dominó que Dorsey prevê vai acontecer. E aí, meu caro, não são só as ações da Block que sobem. É toda empresa que tiver coragem de fazer o mesmo.

A ação da Block já subia quase 25% no after-hours. Quem tinha posição surfou bonito. Quem não tinha, agora precisa decidir: entrar no momentum ou esperar um pullback?

A pergunta que fica

Enquanto Wall Street brinda com champagne a eficiência da IA, 4.000 pessoas estão limpando a mesa de trabalho.

Isso não é julgamento moral — é a realidade nua e crua do capitalismo em mutação. A mesma tecnologia que vai engordar o lucro por ação da Block é a que está tornando milhares de empregos obsoletos. Hoje na Block. Amanhã no seu setor.

A pergunta incômoda não é se a IA vai substituir empregos. Isso já está acontecendo. A pergunta é: você está do lado da mesa que toma a decisão ou do lado que recebe o e-mail de desligamento?

Porque o mercado já escolheu seu lado. E ele não sente remorso.