Tem uma cena no filme O Grande Apostador (The Big Short) em que Michael Burry olha pros números, vê que o mercado inteiro está errado, e aposta contra. Todo mundo ri dele. Até que para de ser engraçado.
Boaz Weinstein, fundador da Saba Capital Management, está fazendo algo parecido agora — mas com uma diferença crucial: ele não está só apostando contra. Ele está comprando o pânico dos outros a preço de banana.
O alquimista desmascarado
Em entrevista exclusiva ao Inside Alts da CNBC, Weinstein não teve meias palavras: os problemas no crédito privado estão "se multiplicando a cada trimestre", e a raiz do problema é o que ele chamou de "alquimia financeira de prometer liquidez que não existe."
Traduzindo do economês pra linguagem de gente: gestoras enormes criaram fundos de crédito privado vendidos para o investidor de varejo com a promessa de que ele poderia sacar quando quisesse. Só que crédito privado, por natureza, é ilíquido. É como vender ingresso de cinema com promessa de reembolso instantâneo — funciona enquanto pouca gente pede o dinheiro de volta. Quando todo mundo vai ao caixa ao mesmo tempo? Porra, aí a casa cai.
E foi exatamente o que aconteceu.
Blue Owl e o efeito dominó
A Saba Capital, junto com a Cox Capital Management, lançou uma oferta para comprar 6,9% das cotas do Blue Owl Capital Corp. II — um fundo de crédito privado não-listado — com um desconto de 34,9%. Leu direito: quase 35% de desconto.
Por que alguém venderia assim? Porque o fundo travou os resgates trimestrais e precisou vender US$ 1,4 bilhão em empréstimos diretos para tentar dar liquidez aos investidores. E não foi caso isolado. Uma enxurrada de fundos de crédito privado não-listados foi atingida por pedidos de resgate acima do limite trimestral de 5%.
Segundo analistas do Jefferies, os fluxos de patrimônio privado caíram 19% no primeiro trimestre comparado ao Q4. E a expectativa é que a taxa de resgates em produtos de crédito voltados ao varejo continue subindo.
O dominó está caindo. E o Weinstein está catando as peças do chão.
O jogo duplo que faz sentido
Aqui é onde a história fica interessante — e onde o circo financeiro começa a reclamar.
Alguns críticos acusam Weinstein de criticar a indústria de crédito privado apenas para assustar investidores de varejo e fazê-los vender cotas a preço de desconto pra ele.
Ele rebateu de frente: disse que não acredita numa onda de defaults ou fraudes em crédito privado. Nem acha que as pessoas devam resgatar mais. ("Os resgates já chegaram", disse.)
Na verdade, nas últimas semanas, Weinstein comprou ações dos maiores gestores do setor — Ares, Apollo, Blackstone. Até um pouco de Blue Owl ele tem na carteira.
"Estamos comprados nas ações dessas empresas na ideia de que, caso isso esteja sendo exagerado, esses são os caras que vão ser os vencedores no final, quando a poeira baixar", disse.
Isso é skin in the game, meu amigo. O cara aposta dos dois lados da mesa porque enxerga assimetria: crédito privado está pessimista demais, crédito público está otimista demais.
A aposta contra o crédito público
E aqui está a cereja envenenada do bolo: Weinstein está vendido em crédito público via credit default swaps e derivativos de crédito. A lógica dele é brutal na simplicidade — se os fundos de crédito privado travam resgates, os investidores vão precisar vender ativos líquidos pra levantar caixa. E isso pressiona o mercado público.
"Eu acho que o crédito público está incrivelmente mal precificado, e parte do meu raciocínio de curto prazo é informado pelos problemas que o mercado de crédito privado está tendo", afirmou.
O que isso significa pra você
Weinstein é um dos caras mais sofisticados do mercado. Ele não é guru de Instagram vendendo curso. Ele gerencia bilhões e coloca o próprio dinheiro onde está a boca.
A lição aqui não é "venda tudo" nem "compre crédito privado". A lição é mais profunda: desconfie de qualquer produto financeiro que promete liquidez em ativos ilíquidos. Isso é a definição de alquimia — transformar chumbo em ouro. Funciona até o dia que alguém testa se o ouro é de verdade.
Quando a maré baixa, a gente descobre quem estava nadando pelado. E pelo visto, tem muita gente sem roupa nessa praia.
A pergunta que fica: quantos dos seus investimentos "seguros e líquidos" realmente são líquidos quando todo mundo quiser sair ao mesmo tempo?