"O velho não sai de cena. Ele reorganiza o palco antes de ir."
Essa frase poderia estar num filme sobre máfia italiana. Mas é sobre Warren Buffett. Porque o que o 13-F da Berkshire Hathaway revelou nessa semana não é apenas um rebalanceamento de carteira — é o testamento de investimento de um cara de 95 anos que sabe exatamente o que está fazendo.
Vamos aos fatos antes de eu destrinchar a coisa.
O que o filing mostrou
A Berkshire cortou mais 4,3% da sua posição em Apple no quarto trimestre de 2025. A posição caiu pra US$ 61,96 bilhões — que ainda é, de longe, a maior posição da carteira. Mesmo depois de ter cortado dois terços da posição em 2024 e ter continuado aparando no segundo e terceiro trimestres do ano passado.
Além disso, a Berkshire abriu uma posição nova: US$ 351,7 milhões no New York Times. Uma aposta relativamente pequena — 29ª entre 41 posições — mas que diz muito sobre a cabeça do velho.
E aqui tem um detalhe que pouca gente está comentando: esse foi o último trimestre de Buffett como CEO. Greg Abel assumiu o comando no início de 2026. Todd Combs, o cara que era um dos gestores de investimentos da Berkshire e também CEO da Geico, saiu em dezembro e foi pro JPMorgan.
Ou seja: o velho literalmente arrumou a casa antes de entregar as chaves.
A Apple e o elefante na sala
A Apple subiu uns 9% em 2025. Parece bom, né? Só que o S&P 500 subiu mais de 16%. E em 2026, a ação está caindo cerca de 3%, incluindo o pior dia desde abril de 2025.
Buffett sempre tratou Apple como uma empresa de consumo, não como uma empresa de tecnologia. É o iPhone como Coca-Cola digital — a Coca-Cola que você carrega no bolso. Mas o velho está reduzindo.
E aqui é onde o pessoal do "compre e segure pra sempre" começa a suar frio.
Se o maior buy-and-hold do planeta está vendendo Apple sistematicamente há mais de um ano, talvez — só talvez — ele esteja vendo algo que a manada ainda não viu. Ou talvez esteja simplesmente fazendo o que um cara responsável faz: deixando a carteira mais enxuta e gerenciável pro sucessor.
Não sabemos se os cortes foram feitos diretamente pelo Buffett ou pelos gestores Combs e Weschler. Mas pouco importa. A direção é clara: menos concentração, mais diversificação, mais caixa.
A Berkshire está sentada numa montanha de dinheiro que daria inveja a qualquer banco central de país emergente. E enquanto os gurus do Instagram mandam você ir all-in em tech, o cara que literalmente inventou o investimento em valor está fazendo o oposto.
New York Times: a aposta que ninguém esperava
Agora, por que diabos comprar New York Times?
Primeiro, lembre que Buffett sempre amou negócios de mídia. A Berkshire tinha o Buffalo News, o Omaha World-Herald, dezenas de jornais locais. Ele vendeu tudo pra Lee Enterprises em 2020, mas nunca escondeu que entendia o poder de uma marca editorial.
O NYT não é mais um jornal. É uma plataforma de assinatura digital com quase 11 milhões de assinantes. Receita recorrente. Previsível. Margem crescente. É o tipo de negócio que Buffett ama: marca forte, moat (vantagem competitiva) claro, geração de caixa consistente.
US$ 351 milhões é troco de pinga pra Berkshire. Mas é um sinal. Buffett nunca compra por comprar. Cada posição nova é uma declaração de tese.
O que isso significa pra você
A narrativa oficial vai ser: "Buffett está ficando mais conservador". Os analistas de banco vão falar em "rotação defensiva". Os influencers vão postar vídeos dizendo "Buffett abandonou a tech!".
Tudo isso é ruído.
A verdade é mais simples e mais brutal: Buffett está preparando a Berkshire pra sobreviver sem ele. Menos complexidade, menos concentração, mais resiliência. É o que Nassim Taleb chamaria de tornar o portfólio mais antifrágil.
E enquanto você lê essa notícia, a pergunta que deveria estar martelando na sua cabeça não é "devo vender Apple?".
A pergunta é: se o cara com mais skin in the game da história do mercado está simplificando e acumulando caixa — por que porra você está fazendo o contrário?