Existe uma ironia quase poética — quase cruel — no fato de que a empresa que segura o ticker $AI na bolsa americana esteja derretendo enquanto o mundo inteiro não para de falar em inteligência artificial.
A C3 AI, aquela que abriu a $100 por ação em 2020 e chegou a bater $180 na euforia pós-IPO, está sendo negociada a míseros $10. E na quinta-feira, despencou mais 17%, atingindo a mínima histórica.
Leia de novo: mínima histórica. No meio da maior revolução de IA da história humana.
Se isso não te diz alguma coisa sobre o circo do mercado, nada vai dizer.
Os números que ninguém queria ver
O terceiro trimestre fiscal da C3 AI foi um desastre sem maquiagem. A empresa reportou US$ 53 milhões em receita — o mercado esperava US$ 76 milhões. Não é uma "leve miss". É errar o alvo por 30%. É o equivalente financeiro de chutar um pênalti e acertar o gandula.
O prejuízo por ação veio em 40 centavos, contra a expectativa de 29 centavos. E como se não bastasse o banho de sangue trimestral, o guidance para o quarto trimestre é ainda mais deprimente: receita entre US$ 48 milhões e US$ 52 milhões, quando Wall Street esperava US$ 78 milhões.
O prejuízo operacional projetado? Entre US$ 56 milhões e US$ 64 milhões. Acima dos US$ 48 milhões que os analistas — já pessimistas — tinham na planilha.
Porra, a empresa não está errando por pouco. Está errando por um abismo.
O CEO novo e o facão
Stephen Ehikian, que assumiu o cargo de CEO em setembro depois que Thomas Siebel teve que sair por problemas de saúde, fez o que todo CEO novo faz quando encontra a casa pegando fogo: mandou cortar tudo.
26% da força de trabalho global. Fora. Na rua. Além de uma redução de 30% nos custos com terceirizados e fornecedores.
A frase de Ehikian na call de resultados é quase um estudo de caso em comunicação corporativa enlatada: "Todo CEO está fazendo da IA uma prioridade estratégica, e nossos produtos entregam exatamente isso." Mas logo em seguida veio a facada: "Ficou claro para mim que nossa estrutura de custos era simplesmente alta demais, e não estávamos organizados corretamente para a oportunidade."
Traduzindo do economês para o português das ruas: a empresa gastava como se fosse a OpenAI, mas faturava como barraquinha de feira.
A Citizens já rebaixou o papel de "outperform" para "market perform" — que no dialeto de Wall Street é o equivalente educado de dizer "foge dessa merda, mas não posso falar isso oficialmente". O analista Patrick Walravens citou "desafios de curto prazo em novos negócios e competição se intensificando". Que surpresa.
O problema real que ninguém quer admitir
Eis o que me incomoda: a C3 AI existe desde 2009. Não é uma startup de garagem. Teve todo o tempo e capital do mundo para se posicionar. Mas enquanto a OpenAI, a Anthropic, o Google e a Meta estavam construindo modelos que mudavam o jogo, a C3 AI ficou vendendo soluções enterprise de IA que, aparentemente, ninguém estava comprando com entusiasmo suficiente.
Ter o ticker "AI" não te torna uma empresa de inteligência artificial relevante. Assim como colocar "blockchain" no nome em 2017 não te transformava em uma empresa de cripto. Lembra da Long Blockchain Corp? Pois é.
O mercado de IA enterprise é real. É gigantesco. Mas é brutalmente competitivo. E quando você compete com Microsoft, Google, Amazon e uma horda de startups que recebem bilhões em funding, a sua estrutura de custos não pode ser "simplesmente alta demais". Isso é sentença de morte em câmera lenta.
De $180 para $10. Uma destruição de valor de 94% para quem comprou no topo. Esse é o preço de comprar narrativa sem olhar para os fundamentos.
A lição que se repete
Charlie Munger dizia que o mercado é uma máquina de transferir dinheiro dos impacientes para os pacientes. Mas no caso da C3 AI, transferiu dinheiro dos ingênuos para os insiders que venderam no IPO a $100.
Toda vez que o mercado cria um hype — IA, metaverso, cannabis, SPACs — aparece uma leva de empresas com ticker bonito, apresentação de PowerPoint impecável e zero capacidade de entregar. E toda vez, milhares de investidores caem na mesma armadilha.
A pergunta que fica: quantas das "empresas de IA" que você tem na carteira hoje são a próxima C3 AI?
Pense nisso antes de dormir.