Olha, se tem uma coisa que o mercado financeiro adora mais do que dinheiro é uma listinha bonita pra pendurar na parede do escritório.
A CNBC, em parceria com a Statista (aquela firma alemã de pesquisa que vive fazendo ranking de tudo), abriu as inscrições para a quarta edição do World's Top Fintech Companies 2026. Traduzindo do economês marqueteiro: é aquele ranking anual onde fintechs do mundo inteiro — de startups de garagem a gigantes como Mastercard, Visa e Stripe — disputam um selinho de "aprovadas pela mídia mainstream".
As inscrições vão até 24 de abril de 2026. As empresas precisam preencher um formulário na plataforma da Statista com dados sobre modelo de negócio, crescimento de receita, número de funcionários — o arroz com feijão da validação corporativa.
O que mudou nessa edição
A novidade deste ano é a inclusão de uma categoria dedicada a regulation tech (regtech) — empresas que ajudam outras a cumprirem suas obrigações regulatórias financeiras. Isso já diz muita coisa sobre o momento do setor. Quando o ecossistema fintech começa a criar subcategorias só pra lidar com a burocracia que ele mesmo enfrenta, você sabe que o bicho amadureceu. É tipo aquele moleque rebelde do bairro que agora usa terno e paga contador.
E faz sentido. O setor fintech deixou de ser aquele "challenger" bonitinho que prometia "disruptar os bancos" pra se tornar parte estrutural do sistema financeiro global. A pandemia acelerou a digitalização como se fosse nitro num motor velho, e agora a inteligência artificial jogou mais gasolina na fogueira.
Os números por trás do hype
Segundo o relatório mais recente da KPMG, o mercado global de fintech atraiu US$ 44,7 bilhões em investimentos distribuídos em mais de 2.200 deals no primeiro semestre de 2025. Parece muito? É. Mas é menos do que os US$ 54,2 bilhões dos seis meses anteriores.
Porra, prestem atenção nesse detalhe. Porque a narrativa que a mídia mainstream vai te vender é a de "bilhões fluindo para fintechs!" — e é verdade. Mas a tendência de desaceleração tá aí, escancarada nos números, pra quem quiser ver. O dinheiro não secou, mas o torneirão aberto de 2021-2022, aquele carnaval de SPAC e valuation inflado, já era.
A lista do ano passado trouxe nomes pesados como Mastercard, Stripe e Visa lado a lado com scaleups mais novas — a Bilt (recompensas de crédito), a TerraPay (pagamentos) e a Entsia (seguros) estrearam no ranking. É a velha fórmula: mistura gigantes com novatos pra dar credibilidade pra lista e oxigênio pros menores.
A pergunta que ninguém faz
Agora, deixa eu ser o chato da festa por um segundo.
Esses rankings servem pra quê, exatamente? Se você é investidor — daqueles que botam dinheiro de verdade na mesa, não que ficam curtindo post no LinkedIn — uma lista dessas te dá zero edge. Zero. Nada. É o equivalente financeiro de ganhar troféu de participação no campeonato de futebol da escola.
Nassim Taleb diria que quem faz a lista não tem skin in the game. A CNBC não tá apostando na Bilt ou na TerraPay. A Statista não vai perder um centavo se metade dessas empresas quebrar em dois anos. E, acredite, algumas vão.
Isso não quer dizer que a informação é inútil. Quer dizer que ela é incompleta. É um ponto de partida, não uma conclusão. E o perigo mora exatamente aí: no sujeito que vê o selo "Top Fintech CNBC" e acha que fez due diligence.
Pra que isso importa de verdade
Se você trabalha no setor ou investe em fintechs, vale ficar de olho nos nomes que aparecerem na lista quando sair. Não pelo selo em si, mas pelo mapeamento de mercado. Quais segmentos estão crescendo? Onde o dinheiro institucional tá indo? A inclusão de regtech como categoria própria é um sinal claro: compliance e regulação viraram um mercado bilionário dentro do mercado bilionário.
E no Brasil? Bom, a gente tem Pix, tem Nubank na bolsa americana, tem um ecossistema fintech que é referência na América Latina. Mas na hora do ranking gringo, cadê a representatividade? Essa é uma conversa pra outro dia — e vai ser uma conversa desconfortável.
Enquanto isso, as inscrições tão abertas. Se você tem uma fintech e quer o selinho da CNBC na sua apresentação pro próximo investidor, vai lá: topfintechs@statista.com.
Só não confunda validação de mídia com validação de mercado. São coisas muito, muito diferentes.