Sabe aquela cena do Matrix em que o Morpheus oferece a pílula vermelha e a pílula azul? Pois é. No mundo da aposentadoria, a conversão Roth é exatamente isso: uma escolha que muda tudo — pra melhor ou pra pior. E a maioria dos aposentados brasileiros que acompanham estratégias do mercado americano (ou que vivem lá) toma essa decisão no escuro, seguindo guru de YouTube que nunca pagou um centavo de imposto do próprio bolso.
Vamos destrinchar.
O que é essa tal "conversão Roth", afinal?
Em linguagem de gente normal: você pega dinheiro de uma conta de aposentadoria tradicional (onde o imposto é pago lá na frente, na hora de sacar) e transfere para uma conta Roth (onde o imposto é pago agora, mas depois sai tudo limpo). É como antecipar a conta do restaurante porque você desconfia que o preço do prato vai triplicar até a sobremesa.
A lógica parece simples. Mas o diabo mora nos detalhes — e nos detalhes tributários, ele tem escritório com CNPJ.
Quando a conversão salva seu couro
Planejadores financeiros certificados (CFPs) — gente com skin in the game, não influencer de ring light — apontam cenários claros onde a conversão Roth faz sentido:
1. Você está numa faixa de imposto baixa temporariamente. Aposentou mas ainda não começou a receber a previdência social? Esse "vale" entre a aposentadoria e os 65-70 anos é ouro puro. Converter nesse período significa pagar imposto a uma alíquota ridiculamente baixa comparada ao que viria depois.
2. Você acredita (com razão) que impostos vão subir. Olha, não precisa ser vidente. Qualquer governo — brasileiro, americano, marciano — que gasta mais do que arrecada eventualmente vai buscar a grana em algum lugar. Spoiler: é no seu bolso. Pagar imposto hoje a uma taxa menor do que a de amanhã é pura matemática, não opinião.
3. Você quer deixar herança limpa para os filhos. Conta Roth não tem distribuição mínima obrigatória para o titular original. Morre, passa pros herdeiros, e eles sacam sem imposto de renda. É quase um "cofre blindado" geracional.
4. Sua conta tradicional está gorda demais. Aquela IRA de 2 milhões de dólares vai gerar distribuições mínimas obrigatórias (RMDs) que podem te empurrar para uma faixa de imposto brutal e ainda aumentar o custo do seu Medicare. Converter aos poucos é como esvaziar uma represa antes da enchente.
Quando a conversão vira tiro no pé
Agora a parte que os gurus escondem:
1. Você paga o imposto com dinheiro da própria conversão. Isso é suicídio financeiro. Se você converte R$ 100 mil e usa R$ 25 mil da própria conta pra pagar o imposto, perdeu 25% do capital que estaria rendendo livre de impostos. É como vender o motor do carro pra pagar a gasolina.
2. Você já está numa faixa alta de impostos. Converter quando sua renda tributável já está no teto é jogar dinheiro no lixo. A matemática não fecha. Ponto.
3. Você vai precisar do dinheiro em menos de 5 anos. Existe a regra dos 5 anos: saques de conversões Roth antes desse prazo podem ter penalidades. Converter pra sacar logo depois é como fazer dieta na segunda pra comer rodízio na sexta.
4. Você está ignorando o efeito cascata. Uma conversão grande num único ano pode te empurrar para uma faixa tributária superior, aumentar a tributação da sua previdência social e elevar os prêmios do Medicare. O planejamento tem que ser feito em camadas, não com marretada.
A lição que o mercado não te ensina
Warren Buffett não ficou bilionário fazendo movimentos bonitos — ficou evitando movimentos estúpidos. A conversão Roth é uma ferramenta poderosa, mas ferramenta nas mãos erradas é arma.
O que os CFPs sérios recomendam? Simulação ano a ano. Projeção tributária real. Não "achismo" de mesa de bar ou calculadora online genérica. Cada situação é uma situação.
E aqui vai a provocação que ninguém faz: quantos dos "especialistas" que te recomendam conversão Roth têm a própria aposentadoria planejada assim? Quantos colocam o próprio dinheiro onde colocam a boca?
Skin in the game, meu amigo. Sempre skin in the game.
Se você está planejando sua aposentadoria — aqui ou nos EUA — a pergunta não é "devo fazer conversão Roth?". A pergunta é: você tem informação suficiente pra saber se essa decisão te salva ou te enterra?
Porque no jogo dos impostos, quem age por impulso paga a conta. E quem paga a conta errada duas vezes não tem aposentadoria — tem arrependimento.