Tem uma cena clássica no Jerry Maguire onde o Tom Cruise grita "Show me the money!" — e é exatamente isso que David Ellison deveria estar gritando pro espelho toda manhã.
Porque, olha, vamos ser honestos: a Skydance, produtora do Ellison, sem Tom Cruise, é tipo um restaurante chique que só tem um prato no cardápio. Bom pra caramba quando funciona. Mas e quando o Cruise resolver pendurar as chuteiras? E quando a próxima Missão Impossível não bater US$ 600 milhões?
Aí você entende por que esse cara está há seis meses tentando comprar a Warner Bros. Discovery como um pitbull que não larga o osso.
O Histórico Que Ninguém Quer Mostrar no Slide
Vamos aos números, que não mentem (diferente de analista de banco):
Dos quase 30 filmes que a Skydance lançou em duas décadas, apenas cinco passaram de US$ 200 milhões em bilheteria doméstica. Três desses cinco tinham Tom Cruise no cartaz. O cara é basicamente o gerador de energia da empresa.
Star Trek Into Darkness? Não chegou a US$ 500 milhões global. Transformers: Rise of the Beasts? Idem. Terminator Genisys? Uma merda tão grande que até o Schwarzenegger finge que não existiu.
Compare com a Disney, que desde 2021 soltou seis filmes bilionários — Avatar, Divertida Mente 2, Deadpool & Wolverine, Moana 2, Zootopia 2. A Warner teve Barbie em 2023, que sozinha fez mais barulho que a filmografia inteira da Skydance sem o Cruise.
Então quando Ellison olha pra Warner Bros. — estúdio do Batman, do Harry Potter, da DC, do universo Matrix, de Barbie — ele não está fazendo compras por capricho. Ele está tentando comprar relevância estrutural.
A Jogada de Xadrez (ou de Pôquer?)
Voltemos ao contexto. Em setembro, Ellison mandou uma oferta não solicitada pra WBD. Tradução do economês: chegou sem ser convidado, tipo aquele tio no churrasco que já vai abrindo a geladeira.
A WBD, ao invés de mandar ele embora, resolveu explorar a venda. Netflix entrou na dança querendo o estúdio e os ativos de streaming premium. Ellison lançou uma oferta hostil — que no mundo corporativo é basicamente dizer "vou comprar direto dos seus acionistas, foda-se a diretoria" — e ainda conseguiu uma janela de negociação de sete dias.
Esta semana, a Paramount aumentou a oferta pela WBD inteira.
Leia de novo: pela WBD inteira. Não só o estúdio. Não só o streaming. O pacote completo.
Por Que Isso Importa Pra Você
"Ah, mas eu não invisto em Hollywood." Calma, meu caro.
A Warner Bros. foi o segundo estúdio que mais arrecadou nas bilheterias americanas no ano passado. A Paramount ficou em quarto. Juntar os dois é tipo quando o Buffett compra uma empresa mediana que tem um ativo extraordinário escondido — você não está comprando o presente, está comprando a opcionalidade do futuro.
Como disse Paul Dergarabedian, da Comscore: a entidade que abocanhar a Warner ganha "tremenda potência em identidade de marca e geração de receita." Em bom português: quem levar a Warner vira gente grande de verdade.
E aqui mora o ponto que ninguém está discutindo: a Netflix quer o mesmo brinquedo. A mesma Netflix que passou anos cuspindo no modelo de cinema tradicional, priorizando streaming sobre tela grande, agora quer o estúdio mais icônico de Hollywood. Ironia digna do Coringa.
O Elefante na Sala
A grande pergunta não é se Ellison consegue comprar a Warner. É se ele consegue gerenciar a Warner.
Porque uma coisa é produzir filmes de ação com Tom Cruise — um profissional que faz as próprias cenas de risco e praticamente se dirige sozinho. Outra coisa é administrar um catálogo com centenas de IPs, uma operação de streaming global, canais de TV e um legado de quase 100 anos.
Nassim Taleb diria: "Esse cara tem skin in the game?" A resposta é sim — Ellison é filho do fundador da Oracle, Larry Ellison, e já colocou bilhões do próprio bolso na Skydance. Não é dinheiro de fundo soberano anônimo. É dinheiro com nome e sobrenome.
Mas ter pele no jogo não garante vitória. Garante que a dor vai ser real se der errado.
A pergunta que fica é simples: você apostaria seu dinheiro num cara cujo maior acerto depende de um ator de 63 anos que escala prédios sem dublê?