Sabe aquele momento no filme de desastre em que o capitão do navio vai ao microfone dizer que "está tudo sob controle" enquanto a água já bate na canela de todo mundo? Pois é. David Zaslav, o CEO da Warner Bros. Discovery, fez exatamente isso.
O cara convocou um Town Hall — aquela reunião geral corporativa que executivo adora usar pra fingir transparência — pra tentar vender pros próprios funcionários a ideia de que a fusão com a Paramount é o caminho certo. O problema? O humor dentro da empresa tá mais pra funeral do que pra celebração.
O Vendedor de Sonhos Sem Plateia
Zaslav é um cara interessante. Ele ganhou mais de US$ 250 milhões em compensação nos últimos anos enquanto a Warner Bros. Discovery derretia em valor de mercado. O papel da WBD caiu mais de 70% desde a fusão com a Discovery em 2022. Setenta por cento, meu amigo. Se isso fosse uma carteira de investimento, o gestor já teria sido demitido, processado e exilado.
Mas no mundo corporativo americano de mega-mídia, o cara não só sobrevive como vai lá na frente, arruma o cabelo e tenta convencer que agora vai.
É tipo o Walter White em Breaking Bad explicando pra família que o negócio dele é "totalmente seguro". A gente sabe que não é. Ele sabe que a gente sabe. Mas ele continua falando.
O Contexto Que Ninguém Tá Contando
Vamos ao que interessa: por que essa fusão Warner-Paramount sequer existe como possibilidade?
Porque o setor de mídia tradicional está sangrando. Streaming não dá dinheiro suficiente. TV linear está morrendo. E os grandes conglomerados de entretenimento construíram impérios de dívida que agora pesam como uma âncora no pescoço.
A WBD carrega algo em torno de US$ 40 bilhões em dívida. A Paramount, por sua vez, já passou por mãos de Shari Redstone, quase foi comprada pela Skydance de David Ellison, e agora flerta com Zaslav como quem flerta no desespero.
A lógica do deal é aquela velha conversa de "juntar dois bêbados pra ver se um segura o outro". Sinergias de custo — leia-se: demissões em massa. Combinação de catálogos de conteúdo. Escala pra negociar com anunciantes. Tudo bonitinho no PowerPoint.
Mas na prática? Fusões de mídia têm um histórico desastroso. A própria fusão AOL-Time Warner em 2000 é considerada o pior deal da história corporativa americana. A fusão da Discovery com a Warner em 2022 destruiu valor. E agora querem repetir a dose?
O Clima De Velório
O que mais me chama atenção nessa história não é o deal em si — é o fato de que Zaslav precisa convencer os próprios funcionários. Isso diz tudo.
Quando o CEO de uma empresa precisa fazer campanha interna pra justificar uma decisão estratégica, é porque a coisa tá feia. Funcionário não é idiota. Eles sabem que "sinergia" é código pra "seu emprego pode sumir". Eles viram colegas sendo demitidos aos milhares nos últimos dois anos. Eles viram projetos cancelados, filmes jogados no lixo por benefício fiscal, e a moral interna ir pro ralo.
E agora o cara chega lá e diz: "Confiem em mim, vai ser diferente dessa vez."
Porra, isso é a definição clássica de insanidade do Einstein aplicada ao mundo corporativo.
O Que Isso Significa Pro Investidor
Se você tem papel de WBD ou Paramount na carteira — ou tá pensando em comprar na "tese de fusão" — presta atenção:
Nassim Taleb diria que esse é o tipo de situação onde a opcionalidade negativa é enorme. O downside de uma fusão mal executada (de novo) é gigante. O upside? Talvez, num cenário otimista, você recupere parte do valor perdido nos últimos três anos. Talvez.
Zaslav não tem skin in the game de verdade. A compensação dele está blindada. Se der merda, ele sai com um golden parachute gordo e vai pra próxima. Quem paga a conta são os funcionários e os acionistas minoritários — como sempre.
A pergunta que fica é simples: você confiaria suas economias num cara que precisa fazer Town Hall pra convencer a própria equipe de que o plano é bom?
Eu não confiaria nem o troco do cafezinho.