Sabe aquela cena do filme Três Homens em Conflito — o Bom, o Mau e o Feio num Mexican standoff, cada um apontando a arma pro outro no cemitério, esperando quem dispara primeiro?

Pois é. É exatamente isso que tá rolando no mercado de reservas de restaurantes nos Estados Unidos. E as armas são bilionárias.

O tabuleiro de guerra

De um lado, a Resy, bancada pela American Express — cartão de crédito da elite gastronômica. Do outro, o OpenTable, veterano de guerra desde 1998, agora turbinado pela Visa e Chase. E entrando pela porta dos fundos com um lança-chamas de US$ 1,2 bilhão, o DoorDash, que comprou a plataforma SevenRooms pra transformar seu app de delivery num hub completo de experiência gastronômica.

Três empresas gigantes. Muito bem financiadas. Todas querendo a mesma coisa: controlar o momento em que você decide onde vai comer.

Ben Leventhal, fundador da Resy e do Eater, resumiu sem rodeios: "São três empresas enormes, ambiciosas e cheias de recurso brigando pelo mesmo pedaço de terreno — os restaurantes de alta demanda."

Traduzindo do economês: a briga não é pela pizzaria do bairro. É pelo restaurante com estrela Michelin onde você espera três meses por uma mesa.

A história que ninguém te conta

Essa guerra não começou agora. Faz mais de uma década que o OpenTable domina o jogo com cerca de 60 mil restaurantes na plataforma. O modelo original era simples e brutal: cobrava uma mensalidade dos restaurantes E uma taxa por cliente sentado. Dupla extorsão, diria Taleb.

A Resy entrou em 2014 e fez o que todo disruptor esperto faz: cobrou só uma mensalidade fixa. Mais barato, mais simples, mais atraente. Conquistou os restaurantes descolados de Nova York e ganhou o que o mercado chama de "fator cool".

Mas cool não paga conta sozinho.

Hoje a Resy tem cerca de 25 mil restaurantes (contando os 5 mil que vão migrar do Tock, comprado pela AmEx por US$ 400 milhões em 2024). Menos da metade do OpenTable.

Aí entra o pulo do gato — ou melhor, o pulo do cartão de crédito.

Skin in the game com cartão Platinum

A American Express transformou a Resy numa extensão do seu cartão Platinum: acesso exclusivo a mesas VIP e um crédito de US$ 400 por ano em restaurantes parceiros. O CEO da Resy, Pablo Rivero, soltou um dado que faz qualquer acionista salivar: "Quem usa o crédito Resy no cartão AmEx gasta 25% a mais em transações de restaurantes."

Porra. 25% a mais. Isso é ouro puro pra qualquer empresa de cartão.

Do outro lado, a Visa e o Chase fizeram o mesmo com o OpenTable. Reservas exclusivas pra portadores premium.

A guerra das reservas virou guerra dos cartões de crédito. O restaurante não é mais só restaurante. É um perk — uma vantagem — pra justificar aquela anuidade de cartão que dói no bolso.

E o DoorDash? Esse é o coringa

O DoorDash gastou US$ 1,2 bilhão comprando a SevenRooms, uma plataforma focada em reservas diretas pelo site do próprio restaurante. A jogada é genial na teoria: você já pede comida pelo app, agora vai reservar mesa pelo mesmo app.

É o modelo "super-app" que a China já usa há anos com o WeChat. Uma plataforma pra tudo.

O UberEats não ficou parado — fez parceria com o OpenTable pra integrar reservas direto no app do Uber. Porque, claro, se você já chamou o carro, por que não reservar a mesa no caminho?

O que isso significa pra quem investe

Preste atenção nos tickers: DASH, UBER, BKNG (Booking Holdings, dona do OpenTable), AXP (American Express).

Quando três gigantes jogam bilhões numa mesma arena, duas coisas acontecem: margens são comprimidas e quem não tem caixa morre. É a comoditização clássica.

A pergunta que você deveria estar se fazendo não é "quem vai ganhar a guerra das reservas."

A pergunta certa é: quem vai sangrar mais até o mercado se consolidar? E mais importante — qual dessas empresas tem estômago (e balanço) pra aguentar o sangramento?

Porque nessa mesa, meu amigo, nem todo mundo vai conseguir sentar.